Sesc SP

postado em 18/02/2020

Copacabana - Um mergulho nos amores fracassados

Copabacana - Portal

Estão nesta produção do Selo Sesc sambas-canção de treze compositores destacados no livro “Copacabana, a trajetória do samba-canção”. Porquanto uma parte das músicas seja bem conhecida, há também as que por razões fortuitas permaneceram adormecidas. Foi o que, ao escrever o livro, me incitou a ressaltá-las. Agora são resgatadas neste CD.

Não estranhem. O insucesso de uma boa canção faz parte da historia, no capítulo das que passaram despercebidas e não aconteceram apesar do merecimento. “Fracassos de amor” de Tito Madi, “Ocultei” de Ary Barroso, “Solidão” de Tom Jobim e mesmo “Você não sabe amar” de Caymmi foram tão pouco gravadas que nem chegam a ser lembradas, muito embora  primorosas criações desses quatro azes da composição.

O que mais me intriga é que duas delas, “Na madrugada” e “Fecho meus olhos...vejo você“ foram gravadas uma única vez e assim destinadas a esse limbo. Dois lindos sambas-canção: o primeiro, que prossegue sem letra, foi composto por Nilo Sergio, o criador do selo Musidisc, e faz parte do LP de 10 polegadas de sua própria gravadora, o seminal disco de estreia do Trio Surdina;  o segundo, ocupava o desprestigiado lado B do disco de 78 rotações de uma garota que aos 17 anos entrava em estúdio pela primeira vez. Era Doris Monteiro que percebeu a pérola de José Maria de Abreu, embora do lado de trás de “Se você se importasse”.

No grupo dos sambas-canção bem conhecidos, que arrisco intuir serão cantarolados desde o início quando ouvidos no disco, estão: “Copacabana” (Existem praias tão lindas....), “Vingança” (Eu gostei tanto, tanto quando me contaram......), “Linda flor” (Ai Ioiô, eu nasci prá sofrer......) e “Fim de caso” (Eu desconfio, que o nosso caso está na hora de acabar....).

Advirto que um grande sucesso de Nelson Gonçalves, o “Boneca de trapo / pedaço da vida / que vive perdida.....”, se denomina “Meu vício é você”. Outros, “Não tem solução” e “Sábado em Copacabana”, certamente também familiares, fazem parte da fina flor do repertório de sambas-canção que dominaram o cenário musical nos anos 50, abrindo as portas da modernidade para a Bossa Nova.
Especialmente por seus graves, Zé Luiz Mazziotti representa com categoria o cantor Dick Farney, quem melhor se identificou com o samba-canção, enquanto a voz cristalina de Luciana Alves cai como uma delicada luva de pelica para as interpretações femininas de canções tão conhecidas em gravações anteriores. Ambos participaram com brilho do espetáculo de lançamento do livro, levado à cena no Sesc 24 de Maio em 2018.

Neste elenco pude convocar os que despontaram recentemente entre os mais requintados intérpretes da música brasileira e, acredito, destinados a brilhante carreira: Anna Setton e Ayrton Montarroyos em sugestivas interpretações. Na tal área das perdidas no pó do tempo aparecem o acordeom do craque Toninho Ferragutti e a voz da única dama viva do período áureo do samba-canção, nossa querida Doris Monteiro que, aos 84 anos, regrava sua favorita naquele disco de seu primeiro sucesso.

Quero ainda registrar a participação de Edy Star que nos anos 50 foi a mais badalada atração nos bares da Praça Mauá destinados a atrair marinheiros. O sucesso foi tanto que chegava a arrastar a granfinagem carioca para aplaudi-lo no Bar Cowboy do cais do porto no Rio de Janeiro.

Finalmente não posso e nem quero deixar de elogiar a dedicação e competência dos músicos – destacando os solistas Moysés Alves, Ubaldo Versolato e Ricardo Herz – e em especial o violonista Ronaldo Rayol, arranjador que tanto admiro.

Zuza Homem de Mello, musicólogo e crítico musical

01. Copacabana

02. Acontece

03. Linda Flor

04. Fracassos de Amor

05. O X do Problema

06. Na madrugada

07. Vingança

08. Fim de caso

09. Fecho meus olhos... vejo você

10. Não tem solução / Você não sabe amar

11. Solidão

12. Meu vício é você

13. Ocultei

14. Sábado em Copacabana

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