Sesc SP

postado em 13/08/2019

Peça de resistência

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Num momento histórico em que o prestígio da educação não resulta em políticas efetivas, Arte da aula discute o papel do educador por meio de entrevistas com dez renomados professores

Por Gustavo Ranieri*

 

Desde o final de abril passado, quando o Ministério da Educação (MEC) bloqueou uma parte do orçamento das 63 universidades e dos 38 institutos federais de ensino, acionou-se uma bomba relógio cujo tempo programado para detonação está a se esgotar. O contingenciamento orçamentário foi aplicado sobre gastos considerados não obrigatórios (água, luz, obras, terceirizados, equipamentos e realização de pesquisas), o que representa a redução de 24,84% desses.

Por causa disso, diversas dessas entidades, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Federal do Paraná (UFPR), a Federal do Amazonas (Ufam), entre tantas outras já anunciaram que, caso o desbloqueio da verba não aconteça, serão obrigadas a parar suas atividades neste segundo semestre, sendo algumas delas já neste mês de agosto.

Enquanto a situação se agrava, chega agora aos leitores um livro mais do que oportuno ao momento. Arte da aula (Edições Sesc), organizado pelo professor e doutor em Filosofia Denilson Soares Cordeiro, e pelo professor e doutor em História social Joaci Pereira Furtado, reúne depoimentos de dez prestigiados professores de universidades estaduais paulistas sobre a experiência primordial de compartilhar conhecimento. São nomes como Willi Bolle, Olgária Matos, Renato Janine Ribeiro, Marilena Chaui, João Adolfo Hansen, entre outros. A publicação é uma homenagem a esses mestres, mas é também um “livro de resistência”.

“Nada pode substituir a riqueza da experiência intersubjetiva da aula – presencial, claro. Ela precisa ser reinventada. Não creio que basta repetir o que nossos mestres fizeram porque aquela universidade [deles] não existe mais. Arte da aula nos propõe reflexões sobre o que fazer, mas também sobre o que não fazer. Nenhum depoente se atreve a ditar receitas, todavia”, enfatiza Furtado.

Já Cordeiro relembra que a construção do livro começou três anos atrás, quando “jamais imaginamos que o contexto político no momento do lançamento dele fosse se alterar ao ponto que chegou atualmente”.

 


(Da esq. p/ dir.) Alcir Pécora, Ataliba de Castilho, Franklin Leopoldo e Silva, Isabel Loureiro, João Adolfo Hansen, Leon Kossovitch, Marilena Chaui, Olgária Matos, Renato Janine Ribeiro, Willi Bolle. Fotografias: Maria do Carmo Bergamo.

 

Atentos à crise educacional que o país enfrenta, conversamos com os organizadores da obra sobre o momento que se atravessa e sobre o Arte da aula como defesa do trabalho intenso que se realiza nas universidades. Confira a entrevista a seguir:

 

As medidas governamentais atuais que acarretam derrotas sucessivas ao saber, à educação, parecem muitas vezes insuperáveis, ou, no mínimo, fortes o suficiente para imporem em pouco tempo atrasos enormes ao desenvolvimento educacional no país. Dessa forma, um livro como Arte da aula se apresenta como peça de combate, como homenagem aos mestres que não desistem de lutar nas universidades ou como utopia do país almejado?

Joaci Furtado – Como homenagem, porque todos(as) os(as) depoentes de Arte da aula vivenciaram uma universidade pública que já não existe mais, e em suas trajetórias se pautaram por valores republicanos hoje sob ataque, como a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Pelo menos desde os anos 1990 implementou-se no Brasil um modelo de universidade gerida como empresa, onde os professores, atomizados na docência e principalmente na pesquisa, também são gerentes de suas carreiras, inventadas como empreendimento (por isso fala-se tanto em “investir no currículo”). O que temos no horizonte agora é a radicalização desse projeto, com a universidade pública captando recursos na iniciativa privada, transformando o corpo docente em equipe de produção, com seus membros concorrendo entre si na disputa por verbas. Não dá para esperar muito desse modelo, porque o capital investe somente na perspectiva do retorno, da rentabilidade, do lucro. Duvido que qualquer empresa tenha interesse em investir em estudos sobre o conceito de justiça em Aristóteles ou sobre a distribuição do “r” retroflexo no território do português brasileiro, por exemplo.

Denilson Cordeiro – O projeto não foi inicialmente de criar uma “peça de combate”, mas, talvez, para usar a sua metáfora, uma “peça de resistência”. O momento histórico converteu a recepção do livro em outra direção, sem prejudicar o nosso objetivo primeiro. Não me parece ser “utópico” o trabalho árduo que se realiza nas universidades, mas, é claro, tende a ser bastante diferente do andamento rotineiro da sociedade, por isso também das políticas públicas. Não é “utópico” no sentido romântico de idealização irrealizável que a palavra comporta e prevaleceu no uso. Porque o que se faz na universidade leva em consideração a tradição do pensamento e do conhecimento, mas sempre de uma perspectiva presente, no esforço de que seja possível a todos e todas, estudantes, professores e gestores, formularem hipóteses consistentes de compreensão e melhoria da realidade.

 

Esforços que são minados quando universidades públicas anunciam, como aconteceu há poucos dias, que não possuem condições para manter as atividades até o fim de agosto.

DC – Pessoalmente, vivo essa crise na penúria a que a universidade pública tem sido submetida. Começaremos o semestre no campus onde trabalho sem restaurante universitário, sem transporte entre as unidades do campus para os estudantes, sem verba para manutenção dos prédios e instalações. A crise é o resultado de um ataque planejado e orquestrado pelas políticas públicas federais e estaduais. A notícia do corte de verbas para o livro didático da educação básica junto com a subsequente notícia da reserva de verba três vezes maior do que aquele corte destinada à compra de votos no congresso nacional dá uma medida da catástrofe em curso.

 

Percebo, ao ler boa parte dos depoimentos presentes no livro, que os professores convidados a falar não esmorecem diante das dificuldades. Pelo contrário, continuam acreditando na transformação que o compartilhar de ideias permite. Na opinião de vocês, esse dom de não desistir é o que faz desses mestres presentes no livro o que são?

JF – Eles passaram a maior parte da carreira sob outras formas de ataque, que são bem diferentes dos atuais, movidos por um governo legitimamente eleito e radicalmente neoliberal. Os depoentes de Arte da aula enfrentaram a ditadura militar, diversos cortes de verbas e reestruturações que resultaram nessa universidade gerencial que descrevi. Mas nada que se compare ao que estamos vivenciando, com acusações infundadas ou estapafúrdias e a deliberada demissão do Estado no financiamento das universidades federais. Parece-me que o anti-intelectualismo protofascista finalmente conquistou o poder e agora se encarrega de exterminar qualquer forma de pensamento alternativo.

 

O que vocês esperam que esse livro alcance?

DC – Esperamos, sobretudo, que esse livro alcance leitores e leitoras, qualquer resultado disso, temos certeza, será ótimo.

JF – Espero também que esse livro contribua para uma história e para uma sociologia da aula na universidade. Pensa-se e escreve-se muito sobre a aula no ensino fundamental e médio. Mas fala-se pouco sobre a aula no ensino superior. Arte da aula pode representar uma interrupção desse silêncio.

 

Vocês acreditam em um futuro educacional positivo do Brasil?


JF – No momento em que lhe respondo está difícil ser otimista com o futuro da educação em nosso país, e não apenas pelas investidas do governo sobretudo contra as universidades federais. Arte da aula pode servir para pensarmos o futuro da educação universitária no Brasil e o lugar da aula na universidade brasileira. Quem sabe esteja aí uma trincheira para o combate que já começou?

DC – Tenho esperança porque a educação é melhor do que a ignorância, porque o respeito é melhor do que a violência, porque os direitos são infinitamente melhores do que qualquer privilégio. Talvez essas formulações sejam vagas, mas pelo menos dão a medida do ponto diametralmente oposto em que penso me encontrar em relação ao que tem feito e proposto as desastrosas políticas públicas sociais no Brasil hoje.
 

*Gustavo Ranieri é jornalista e escritor. 

 

Veja também:

:: trecho do livro

 

Serviços:

o que:

Lançamento do livro Arte da aula

Bate-papo com o organizador Joaci Furtado e com os autores Alcir Pécora e Renato Janine Ribeiro, seguido de sessão de autógrafos. Grátis. 

onde:

Centro de Pesquisa e Formação Sesc São Paulo | R. Dr. Plínio Barreto, 285 - 4º andar - Bela Vista, São Paulo - SP

quando:

14 de outubro de 2019 - segunda-feira, 20h

quanto:

Grátis. Inscrições antecipadas nas Centrais de Atendimento das unidades do Sesc São Paulo ou em sescsp.org.br/cpf

 

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