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postado em 18/02/2019

Sabedoria para uma vida melhor

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Livro reforça a necessidade do saber para se combater as incertezas da era da informação

Por Gustavo Ranieri*

 

Você acessa suas redes sociais, clica para ir à home de um portal de notícias, um jornal te envia a cada cinco minutos um alerta com alguma nova reportagem, seus amigos e familiares compartilham inúmeras mensagens pelo WhatsApp, entre elas várias fake news. Tão em voga, essas causam polêmica com mentiras concretas ou dados adulterados em áreas diversas, seja na saúde, seja na política. Vivemos, sim, na era da informação. Eis uma verdade. Mas essa é a mentira: acreditar que informação é sabedoria.

“As empresas de tecnologia são hoje as mais valiosas do mercado porque detêm o bem que é o mais vendável e, também, o mais transformável em capital: a informação, os dados. Por isso que o conceito de informação acaba se colocando do jeito que hoje está e praticado diametralmente oposto ao conceito de sabedoria”, enfatiza Norval Baitello Junior, professor, doutor em Comunicação e escritor. “Não adianta saber um monte de informação que não esteja a serviço da vida, mas que esteja a serviço da manutenção de uma desigualdade gigantesca no planeta, a serviço de quem possui poder econômico para usar esses dados a favor do aumento do seu próprio poder. A informação não significa sabedoria e hoje ela está sendo usada sem nenhuma sabedoria, porque não está sendo usada para a preservação da vida.”

Junto com o sociólogo alemão Christoph Wulf, Baitello lançou o livro Sapientia: uma arqueologia de saberes esquecidos, coletânea com 14 ensaios de autores brasileiros e alemães para destrinchar o que de fato é sabedoria e como devemos nos educar para esse saber. “A questão da sabedoria é uma questão ecológica. Existe uma ecologia da natureza, a qual busca resgatar hábitos para a nossa vida no planeta, que é a nossa casa e vem sendo muito maltratada por nós. Assim, procuramos no livro resgatar um pouco a ecologia do espírito, do pensamento e a forma com que o homem se relaciona com o seu saber adquirido. A sabedoria requer uma retomada das relações humanas, interpessoais, uma valorização do olhar, sentir, saber e aprender. Implica também numa vivência direta, imediata e sensorial das situações e do aprendizado a partir disso”, explica Baitello.

 

 

Para o escritor, tal vivência interpessoal e sensorial vai de confronto ao uso desenfreado de aparatos tecnológicos em nosso cotidiano, o que, em sua opinião, não provoca apenas doenças físicas, mas, principalmente, psíquicas e sociais. “O que nos transformou em vitoriosos sobre o planeta foi a nossa sociabilidade, nossa capacidade de nos organizarmos em sociedade complexa e essa sociabilidade, hoje, está acontecendo muito por meios artificiais. Corremos um grande risco de acreditar em Big Data [conjunto de dados gerados, agregados e armazenados] como verdade e, na verdade, os Big Datas estão a serviço de outra força que não defende a vida, mas, sim, o capital, os próprios lucros, a desigualdade econômica e social”, reitera.

 

Fake news

Quando concluíram Sapientia, Norval Baitello e Christoph Wulf não imaginavam que o tema do livro estaria tão em alta e que, em meio ao momento de incertezas que o Brasil vive, alavancado pela polarização política evidente nos últimos quatro anos, discutir sabedoria seria fundamental. Ainda mais se analisarmos as pesquisas recentes que demonstraram o alto número de pessoas que acredita em fake news das mais diversas, sem qualquer análise da informação e, por conseguinte, sem qualquer utilização do verdadeiro saber.

“Mentiras sempre foram parte da própria vida social e não só nela. Até na biologia existem fake news. Por exemplo, uma lagarta que adota um determinado mimetismo com cores berrantes para enganar os pássaros como se ela fosse venenosa é uma fake news, vamos dizer assim. Acho que o conceito de fake news é pouco útil para se entender o momento atual. A gente desloca a atenção para uma mentira e acha que foi ela que provocou algo, mas não foi. O que provocou foi a distribuição em larga escala dessa mentira para um público determinado pelos algoritmos dos Big Datas, um público que já foi mapeado e é suscetível a um dos elementos da notícia que foi espalhada com grande capilaridade. Esse é o fenômeno que devemos mapear”, afirma.

 

Recado aos mais jovens

A sabedoria está em tudo, mas é muito mais fruto da experiência vivida e compreendida de cada um do que algo que se transmite em um vídeo no YouTube, por exemplo. Ela está interligada às questões da existência humana, à sociabilidade e à solidariedade, e até a uma certa transcendência relacionada em muitas culturas a Deus. Os textos de Sapientia – Uma arqueologia de saberes esquecidos expõem a sabedoria no diálogo profundo com as artes, com as emoções e até com a economia.

É um livro para todos, óbvio, mas atento às novas gerações, Baitello faz questão de deixar uma mensagem aos mais jovens: “A avalanche de informações que chegam até os nossos olhos , ouvidos e mãos acabam nos deixando sem tempo de refletir sobre o real valor delas e até que ponto nos ajudam a viver ou nos atrapalham. Viver significa usar essas informações para o nosso bem. E o uso da sabedoria, o aprendizado da sabedoria, significa a necessidade de avaliar em cada ação que nós praticamos se a mesma está de acordo com as necessidades da nossa vida complexa, se nos ajuda a sermos mais felizes, seja do ponto de vista biológico, da saúde, da sociabilidade, das amizades, dos afetos, dos amores, dos relacionamentos familiares, com os amigos e do ponto de vista psíquico”, conclui.

 

*Gustavo Ranieri é jornalista e escritor.

 

Veja também

:: trecho do livro

 

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