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Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc 

Figurinos do espetáculo Foi Carmen. Foto de Bob Souza
Figurinos do espetáculo Foi Carmen. Foto de Bob Souza

Caracterizado pela efemeridade, o teatro acontece em determinado tempo e espaço; embora um espetáculo possa ser reencenado, não é possível almejar uma reconstituição que volte a tornar presente uma apresentação anterior. Desse modo, para que públicos e pesquisadores se aproximem parcialmente do seu formato original, é necessário recorrer a documentos de diversos tipos: indícios materiais do fazer teatral (figurinos, adereços e objetos de cena), elementos ligados à comunicação e divulgação de peças (cartazes, programas e folhetos), documentação fotográfica e audiovisual, anotações e esboços feitos pelos diversos profissionais do palco, bem como a fortuna crítica gerada por jornais, revistas, livros e pesquisas sobre as práticas. Esses bens materiais, desde que contextualizados, permitem o acesso e a fruição das gerações futuras em relação às características do espetáculo teatral.  

Tais especificidades referem-se a qualquer ação teatral, solicitando o amadurecimento de expedientes que impeçam que essas memórias se percam. O assunto ganha mais importância na medida em que se considera uma das frentes de trabalho mais relevantes e longevas no âmbito cênico: o Centro de Pesquisa Teatral do Sesc.  

O Centro de Pesquisa Teatral foi criado em 1982 como laboratório permanente de criação e formação teatral. Foi coordenado por Antunes Filho durante 37 anos, até seu falecimento em maio de 2019. Ao longo das décadas, ganhou reconhecimento da crítica e de seus pares, no Brasil e em outras partes do mundo, como referência no fazer teatral.  

A fim de dar prosseguimento ao trabalho do CPT, foram estabelecidos em 2020 alguns eixos temáticos, dentre os quais o vetor “Memória, Acervo e Pesquisa” representa de modo explícito o zelo com esse legado cultural. É nesse contexto que surgem as Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc, iniciativa que consiste na preservação das memórias de espetáculos do CPT e em sua difusão pelo Sesc Digital, plataforma de conteúdos do Sesc, e por meio de debates e ações formativas online. Até agora, os seguintes espetáculos já foram abordados e encontram-se disponíveis na plataforma: A Pedra do Reino, A Hora e Vez de Augusto Matraga, Xica da Silva, Fragmentos Troianos, Medéia, Medéia 2, Antígona, Foi Carmen, Gilgamesh. 

O material integra o acervo do Sesc Memórias, programa que atua na coleta, higienização, organização, guarda e disponibilização da documentação produzida pela instituição, tendo como um de seus propósitos preservar e difundir suas Memórias.    

A integração do acervo de indumentária do CPT (figurinos, acessórios, objetos cênicos) ao acervo do Sesc Memórias exigiu atenção para aspectos como: manutenção dos sentidos de uso dos trajes e peças; preservação de seu histórico, incluindo pormenores ligados à criação, idealização e manufatura, como também eventuais mudanças ocorridas ao longo do tempo, incluindo reutilizações em outras encenações. Para os reparos e restauros, foi necessário recompor os figurinos dentro do contexto de seus espetáculos, ação para a qual a consulta à documentação audiovisual e fotográfica produzida e acumulada pelo grupo, bem como à memória dos membros do CPT, foi fundamental.  

Diferentemente dos trajes produzidos em série, o figurino teatral apresenta determinadas características, como produção artesanal e fragilidade dos materiais, exigindo um conjunto de medidas específicas para retardar a sua deterioração. A gestão do acervo de indumentária do CPT implica no estabelecimento de metodologias e rotinas de trabalho que abarque ações como a pesquisa, inventário das peças, higienização, conservação preventiva, acondicionamento e guarda adequados, além de garantia do acesso por parte de pesquisadores, artistas e demais envolvidos.

As etapas de higienização e medidas de conservação preventiva foram feitas pela figurinista Rosângela Ribeiro, que fez parte do CPT por muitos anos; as fotos com os figurinos restaurados e montados, feitas por Bob Sousa, servem de linha condutora de cada Coleção e, articuladas a outros documentos, trazem à luz aspectos que ficam por vezes ocultos do público.  

  

Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc - A Pedra do Reino  

  
(Foto: Adalberto de Lima)

 Na Coleção, as imagens e vídeos selecionados permitem visualizar detalhes sobre a montagem A Pedra do Reino, de 2006, uma teatralização de Antunes Filho, para duas obras de Ariano Suassuna: “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” e “História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão: ao Sol da Onça Caetana” – ambas narradas por Quaderna, protagonista da peça, interpretado por Lee Taylor.  

É possível assistir uma gravação, na íntegra, de “A Pedra do Reino” e também saber algumas histórias sobre seu processo de teatralização no primeiro episódio da série “CPT por Danilo Santos de Miranda”.   
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Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc - A Hora e Vez de Augusto Matraga 


(Foto: Célia Thomé de Souza)

Em A Hora e Vez de Augusto Matraga, conto do livro “Sagarana”, o encenador buscava o sentido mais pessoal do sertão. Não queria mostrar o universo externo de Matraga, mas as veredas dentro dele.  

Na adaptação, feita pelo próprio Antunes, foram enxertadas ideias e imagens de outras obras rosianas, ressaltando o pensamento mítico do autor. A trajetória do protagonista vinha embebida do arquétipo yin e yang, o que se refletia nos jogos de luz e sombra e nos pólos desse herói, que vem das trevas e do crime para se santificar. Essa pesquisa está na base do que o diretor começava a implementar no CPT_Sesc: uma busca da estética não pelo concreto, mas pelo metafísico.  

A montagem, que estreou em 1986, trazia no elenco Luís Melo, recém-chegado ao grupo, além de Marlene Fortuna, numa interpretação elogiada de Mãe Quitéria, e Raul Cortez, ator convidado, como Matraga – papel que também foi de Luiz Baccelli.  

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Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc - Xica da Silva 


(Foto: Paquito)

O espetáculo Xica da Silva esteve em cartaz em 1988, ano do centenário da abolição da escravatura no Brasil, e viajou para diversos lugares, como Coreia do Sul e Japão. Protagonizada pela atriz Dirce Thomaz, a peça foi fundamental na trajetória e evolução do grupo com o uso da cenografia como elemento narrativo, mais do que simples recriação realista de um espaço, era parte efetiva na criação de significados no relacionamento com atores e texto.    

Com texto de Luís Alberto de Abreu e cenário e figurinos de J.C. Serroni, a peça narra a vida de Francisca da Silva de Oliveira, a Xica da Silva, uma mulher que já foi escravizada, mas atingiu posição de destaque na alta sociedade mineira durante o apogeu da exploração de diamantes, na segunda metade do século XVIII. 

A Coleção conta com relato em vídeo de J.C. Serroni sobre como foi a criação dos figurinos do espetáculo, além de fotos de cena e documentos gráficos. 

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Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc - Fragmentos Troianos 


(Foto: Nilton Silva)

Com imagens do figurino criado pelas artistas Jacqueline Castro Ozelo, Joana Pedrassolli Salles e Cibele Álvares Gardin, além de peças gráficas e outros itens que retratam o espetáculo, essa coleção contém elementos cênicos que evocam um cenário de guerra, de campo de concentração nazista, reforçando a luta e a perseverança contra o “mal”.   
 
Fragmentos Troianos é a primeira de um ciclo (não-oficial) de adaptações de tragédias gregas realizada pelo CPT - junto com Medéia e Antígona. Em comum, apresentam mergulhos no universo feminino - todas com mulheres como protagonistas - e um processo de criação focado na busca do que Antunes chamou de a sonoridade trágica, uma forma de interpretar tragédias no palco. A pesquisa vocal e corporal buscou radicalizar a voz que se usa no cotidiano, conferindo à interpretação mais dramaticidade para retratar o sentimento (e o sofrimento) dos atores.  
  
A peça é uma adaptação do texto “As Troianas”, escrito por Eurípedes em 415 a.C. que retrata o final da Guerra de Tróia a partir de arquétipos femininos, os ciclos de fertilização, geração e morte. A adaptação do texto realizada por Antunes segue seu pensamento de que, mesmo ao se trabalhar textos clássicos, a encenação deve dialogar com tempos presentes. Assim, parte-se da Grécia Antiga para refletir sobre o horror em todos os tempos, sejam eles as guerras da Iugoslávia, o nazismo ou massacres nacionais como o de Carajás (PA) e o da Candelária (RJ). O cenário corrobora com a imagem da guerra por meio de projeções enquanto busca uma aproximação do minimalismo de cenografia e figurino, uma forma de deixar o impacto na atuação, na construção da tragédia com a sonoridade trágica.  

Antes de estrear no Teatro Sesc Anchieta em 1999, o espetáculo, com direção de Antunes Filho, apresentou-se em Shizuoka (Japão) e em Istambul (Turquia) - a 30 minutos de distância de onde “As Troianas” foi concebida por Eurípedes.  
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Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc – Medéia e Medéia 2 


(Foto: Paquito)

A Coleção traz imagens do figurino restaurado das duas montagens, Medéia e Medéia 2, além de fotos de cena, documentos gráfico-textuais e fichas técnicas do restauro, que explanam todo o processo realizado para trazer a público esses itens. As fotos dos trajes e de cenas indicam a preocupação da direção de Antunes em criar uma ambientação que favorecesse a atenção ao trabalho vocal e corporal dos atores, buscando o minimalismo dos elementos cênicos.  

A base do enredo é a peça de Eurípides sobre o mito grego de Medéia, de 431 a.C. Nela, a personagem-título é neta de Hélio-Sol, vive em Cólquida, na ilha de Ea, sob o reino de seu pai, Aetes. Ela se apaixona por Jasão, em uma armadilha tramada pelos deuses Afrodite e Eros. Depois de ajudar o amado a conquistar o Velocino de Ouro, Medéia foge com Jasão para Grécia, contrariando sua família. Depois de anos de casamento, Jasão a troca pela filha de Creonte. Tomada pela ira, ela mata seus filhos com Jasão, a nova esposa dele e ele próprio. Ou seja, através da versão de Eurípides, Medéia acaba reduzida a uma mulher vingativa, ciumenta e assassina. 

As tragédias de Eurípides foram, para Antunes Filho, pretextos para tratar de acontecimentos de seu tempo presente. Para isso, ele desenvolveu novas técnicas e métodos de voz e de interpretação, para além de uma concepção realista, trabalhar o corpo todo a serviço da voz. A intenção do diretor era ‘apagar’ a divisão entre corpo e alma dos atores, em exercícios corporais. 

Em Medéia, abandonou-se o palco italiano, optando por algo próximo ao de teatro Nô (forma de teatro japonês), com a plateia mais próxima dos atores, dando mais compreensão da voz, e colocando os espectadores dentro da cena, como cúmplices da ação. A cenografia do espetáculo é de Hideki Matsuda e os figurinos são de Jacqueline Castro Ozelo e Christina Guimarães. 

Medéia 2 continuou o trabalho do método da voz e um aprofundamento na releitura do mito grego, valorizando ainda mais o texto, com mais influência do Butô (dança contemporânea japonesa) e do minimalismo, representado inclusive nos figurinos de Anne Cerutti e Jacqueline Castro Ozelo. Anne também é responsável pela cenografia da peça.  

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Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc – Antígona 


(Foto: Nilton Silva)

A Coleção sobre o espetáculo Antígona apresenta 25 imagens de figurinos, fotografias de cena feitas por Nilton Silva, peças gráficas, dentre elas as utilizadas na divulgação de sua passagem pela Espanha e um relato, em vídeo, de J. C. Serroni, responsável pelos figurinos da peça.  

Nas fotos de Silva é possível conferir o cenário proposto por J.C. Serroni, inspirado nos cemitérios verticais, com nichos e gavetas, por onde os personagens entravam em cena. De acordo com o cenógrafo, a ideia surgiu a partir da informação de que partes inteiras de monumentos – paredes, colunas – foram levadas para museus na Europa, em decorrência dos conflitos no Oriente Médio. Dessa forma, o cenário de Antígona representa uma dessas paredes, exposta como se estivesse num museu.  

O espetáculo marca o retorno da parceria entre Antunes Filho e J.C. Serroni. A primeira tentativa da dupla de levar Antígona aos palcos foi nos anos 1990, porém, o diretor achava ainda não ter encontrado os atores que correspondiam à sua expectativa. Mais tarde, em 2005, a partir do desenvolvimento de seu método voltado à preparação do ator - em especial a preocupação com a voz, observada em Fragmentos Troianos, Medéia e Medéia 2 - Antunes retomou o projeto, completando o ciclo de adaptações das tragédias gregas. As peças compartilham entre si alguns elementos como o forte trabalho vocal e corporal, o mergulho do universo feminino e se inspiram em textos clássicos para abordar questões contemporâneas.   

Milhares de interpretações foram dadas à versão de Sófocles para o mito de Antígona, escrito por volta de 442 a.C. A proposta de Antunes Filho, levada ao palco pela primeira vez pelo grupo Macunaíma, em 2005, respeita a poética do dramaturgo grego impregnada de religiosidade e a atualiza, buscando os fundamentos da própria tragédia e os tornando acessíveis aos dias atuais. O recurso básico utilizado na encenação é o “teatro dentro do teatro”, ou “metateatro”, e assume que a tragédia é uma forma de expressão da totalidade, observando o ser humano na relação direta com o divino e não mediado por valores da realidade. Como Antunes disse em entrevistas na época, Dionísio (ou Baco, em latim) é o deus que guia o enredo, o eterno retorno e a atualização do mito estão presentes nos acontecimentos cênicos, como em qualquer rito cuja função é religar o atual com o ancestral, o humano com o divino.  

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Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc – Gilgamesh 


(Fotografia: Paquito)

A Coleção do espetáculo Gilgamesh tem muitas fotos de cena, além das fotos dos trajes, adereços e documentos gráfico-textuais. Gilgamesh é considerada a primeira das grandes epopeias literárias da humanidade, escrita quase dois milênios antes de Homero. A história narra os feitos do mito sumério Gilgamesh, rei de Uruk (cidade da antiga Mesopotâmia), que era dois terços divino e um terço humano e passou a vida em busca da imortalidade.  

Para Antunes Filho, a morte era considerada o maior drama humano e foi o que despertou o seu interesse em trazer para os palcos a interpretação do tema, expondo os conflitos e o medo dos homens perante sua condição mortal. Por não ter encontrado uma versão que atendesse suas expectativas, o encenador decidiu escrever sua própria, que teve montagem em 1995 e foi publicada em 1999.  

A encenação integrava a investigação cênica empreendida pelo diretor sobre o mito da imortalidade, juntamente com outro aspecto fundamental do seu método em desenvolvimento no CPT e Grupo Macunaíma: o processo junguiano de individuação, que passou a ser a pedra angular do seu trabalho, incorporado às técnicas aplicadas na formação do ator. 

Gilgamesh foi um trabalho de pesquisa e vivência para os atores, no qual, segundo Sebastião Milaré, Antunes instaura um ritual com a 'técnica do afastamento', que consiste na narração da epopeia de Gilgamesh feita pelos atores, que se revezam para leitura do livro sagrado após a performance da dança Dervixe.  

A cenografia, feita por J.C. Serroni, traz um jogo entre a forma estética e a realidade de onde ela procede, que inclui os carros-vitrinas e elementos que surgem e desaparecem durante a cena.   

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Coleções e Acervos Históricos CPT_Sesc – Foi Carmen 


(Foto: Bob Souza)

A Coleção sobre a peça Foi Carmen, montagem dirigida por Antunes Filho em homenagem ao artista Kazuo Ohno, dançarino japonês e um dos precursores do Butô, evidencia os objetos cênicos e traz o vídeo do espetáculo na íntegra.   

O espetáculo foi elaborado e concebido em apenas vinte e cinco dias, pelo diretor, que pretendia levá-lo à cidade de Yakohama, no Japão, e presentear o amigo artista nas comemorações de seu centenário. Antunes Filho conheceu Kazuo Ohno no Festival de Nancy, na França, e ficou impressionado ao vê-lo interpretar sua obra-prima, Admirando La Argentina, em memória à dançarina de flamenco Antonia Mercé - conhecida como “La Argentina” e por ter ajudado a estabelecer a dança espanhola como arte teatral -, com a qual se encantou na juventude.   

Antunes encontrou na imagem da atriz e cantora Carmen Miranda uma ligação com a dançarina argentina, dando início ao processo de construção da sua peça híbrida de dança-teatro, que fugia à estética utilizada em suas obras. Foi Carmen não se trata de um espetáculo sobre a biografia da artista luso-brasileira, mas sobre o imaginário popular que ela representava, com canções, gestos, seus turbantes ornados com flores e frutas, colares, balangandãs, plataformas, juntamente com a referência ao butô para refletir sobre o tempo oriental, o espaço, além dos arquétipos, mitos e a maneira de viver nas culturas orientais e ocidentais. 

Um espetáculo sem texto; apenas um trecho falado em "fonemol", língua criada por Antunes, e um enredo sucinto, encenado por meio de fragmentos que começa com a menina contando passos, que sonha com os microfones das rádios e em ser Carmen Miranda; um malandro que percorre as ruas do Rio de Janeiro e tem a visão fantasmagórica da que “Foi Carmen”, interpretada por Emilie Sugai, dançando sempre de costas e com o rosto coberto, “porque ela foi, não é mais”, diz Antunes. Foi Carmen estreou em 2005, no Festival de Teatro de Curitiba, depois foi encenada no Rio de Janeiro e finalmente no Japão. Somente após 3 anos iniciou temporada em São Paulo.  

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