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Tradutoras falam sobre a importância da tradução coletiva entre mulheres de obras feministas

Publicações independentes e de livre circulação são a proposta do Coletivo Sycorax 

 

O processo tradutório coletivo de mulheres com base em obras literárias femininas foi o tema do encontro Tradução Feminista – a prática do Coletivo SycoraxPara falar sobre o trabalho coletivo de mulheres, o Sesc Bom Retiro entrevistou as integrantes do Coletivo SycoraxCecília Rosas,  Cecilia Farias,  Juliana Bittencourt,  Leila Giovana Izidoro e Shisleni Oliveira Macedo. O coletivo ministra também, no próximo sábado (5/6), a oficina Traduzindo coletivamente: Silvia Federici, que está com inscrições esgotadas. 

Coletivo Sycorax participa da segunda parte do projeto literário Mulher de Palavra  Coletiva, que abrange diversas formas de organização coletiva de mulheres que têm na palavra parte essencial de seu fazer. Leia a seguir as entrevistas:

 

Como surgiu a ideia do coletivo? Como foi este encontro de cinco mulheres que já atuavam de forma independente na área de tradução?  
Shisleni Oliveira Macedo: Nós nem sempre fomos cinco mulheres. Nós já fomos mais e sempre tivemos outras ajudas para além do coletivo, então, nunca fizemos nada sozinhas. Algumas pessoas, que fazem parte do coletivo desde o começo, faziam parte também da revista Geni, e perceberam que existia uma demanda de tradução de textos feministas em português do Brasil, para circular no Brasil, e não apenas aqui. No meio disto, a gente também entrou em contato com o livro da Silvia Federici, que tinha sido traduzido em espanhol e tinha tido uma boa reverberação na comunidade ‘espano hablante’ aqui da América Latina. A ideia, no começo, era de publicar o Calibã e a Bruxa em fascículos na revista Geni, só que a Geni acabou, então a gente continuou traduzindo um pouco sem saber o que iria fazer no final com esse material. E a nossa proposta sempre foi de trazer autoras que estivessem fora do radar das grandes editoras e que fossem importantes para um debate feminista e anticapitalista no Brasil. Então esse foi um primeiro passo para pensarmos na criação do coletivo.

Hoje, a gente tem pensado uma coisa mais ampla: em feminismos latino-americanos, feminismos que são indígenas e mesmo feminismos negros, chicanos. Temos pensado em outras linhas também. Mas a ideia é sempre essa: textos feministas que estejam fora do radar das grandes editoras e que possam circular livremente, porque acho que esse é um eixo importante do trabalho do coletivo, de textos que precisam, necessariamente, ficar disponíveis em formato pdf, por tempo indeterminado, na nossa página e não apenas na nossa página, porque uma questão fundamental para o Coletivo Sycorax é o acesso livre ao conhecimento.
 

Como se dá a escolha das obras a serem traduzidas?  
Juliana Bittencourt: A escolha é feita nos debates realizados nas reuniões coletivas, nas quais, a partir das nossas leituras ou de indicações que recebemos, conversamos sobre obras que acreditamos que teriam um potencial de contribuir com debates teóricos, que se conectam com nossas práticas políticas. A escolha também parte de uma concepção de tradução política, feminista e coletiva, uma reflexão que fomos gradualmente incorporando à nossa prática, de como podemos contribuir para circulação e compartilhamento de conteúdos que não estão disponíveis no mercado editorial brasileiro. Muitas vezes nos interessam obras que foram publicadas há muitos anos, mas que ainda não foram traduzidas para o português. Observamos se existem lacunas e também pensamos se as obras podem ampliar nossa conexão com debates que estão sendo realizados na América Latina.

No caso do primeiro livro que traduzimos, o Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva – de Silvia Federeci, ele foi publicado originalmente em inglês em 2004 e, além de contribuir com uma análise feminista e marxista da origem da opressão e da exploração das mulheres no capitalismo, consideramos também a participação ativa da Silvia Federeci em vários debates que aconteceram na região, a recepção do livro e o acolhimento na América Latina. Então, além do livro em si, consideramos também a recepção da obra e a possibilidade de ressignificar aquele livro por meio da tradução coletiva. 

 

Como acontece organização e divisão do processo de tradução? 
Cecilia Farias: 
A gente já fez de maneiras muito diferentes em cada livro e a gente foi assim meio pela tentativa e erro, chegando numa maneira de traduzir coletivamente, que é a que a gente faz agora. Uma espécie de método em que separamos o texto em vários pedaços pequenos, e aí começamos a traduzir, enquanto isso vamos discutindo as questões que surgem coletivamente. Então, a gente separa vocabulário, termos, trechos e vai conversando sobre ele enquanto traduz.

Depois, cada uma pega a tradução da outra para revisar. Isso pode acontecer também. Algumas vezes essa etapa é feita, por exemplo, em duplas, já aconteceu também. E aí, por fim, uma pessoa que não participou do processo de tradução, mas participou de toda a discussão, vai ler o texto inteiro para dar uma forma final de acordo com o que foi discutido e, enquanto isso, vai sendo também um processo decidido coletivamente. 

 

Como foi traduzir Silvia Federici e como vocês  veem  o impacto de trazer sua obra para o Brasil? 
Leila Giovana Izidoro: 
Esse livro, especificamente, era muito importante para a gente porque a Silvia Federeci parte, justamente, de um método materialista histórico dialético para discutir as origens da opressão das mulheres no capitalismo. E ela localiza no processo de acumulação primitiva essa gênese. Então, por exemplo, ela tá discutindo muito o conceito de Marx de acumulação primitiva. Marx fala que o capitalismo não poderia se desenvolver sem uma concentração prévia de capital de trabalho e isso demandou a separação dos trabalhadores, das trabalhadoras e do meio de produção. E ele vai falar especificamente do processo de cercamento, na Inglaterra, dos campos, das terras comunais e a expulsão do campesinato para as cidades, onde eles então se tornariam proletários. E ela também identifica, no capital, que o colonialismo e a escravidão fizeram parte desse processo de acumulação primitiva, quando ela fala da descoberta das terras auríferas na América e tudo mais. E aí a Silvia Federici traz um ponto muito importante com relação à acumulação primitiva, porque ela justamente acrescenta que, nesse processo de acumulação primitiva, também fez parte o fenômeno de caça às bruxas, que é a perseguição, o assassinato de mulheres durante, principalmente, o período do Iluminismo, como uma forma de disciplinamento dos corpos das mulheres para o trabalho reprodutivo, e desapropriação dos conhecimentos também comuns sobre a reprodução social.

Esse ponto, em que a autora localiza no Iluminismo esse período da caça às bruxas, é importante, porque ela faz justamente esse paralelo de dizer que, ao contrário do que se possa imaginar, a caça às bruxas foi fenômeno de uma idade ‘obscura’, que tinha a ver com simples crendices populares. Na verdade, não, ela está localizando essa perseguição às mulheres na construção de um estado moderno. Ela, inclusive, escreve que a substituição da bruxa e da curandeira popular pelo doutor levanta a questão sobre o papel que o surgimento da ciência moderna e a visão científica de mundo também tiveram nessa ascensão e na queda no fenômeno da caça às bruxas.

Para nós, entender esses fenômenos da gênese do capitalismo, entender como a questão de gênero e a questão racial estão relacionadas à questão de classe, é bastante importante, para entendermos os processos atuais de acumulação, de exploração e de expropriação também. 

Então, a motivação para ter traduzido entre mulheres também tem a ver com isso, da gente entender que em cada fase do desenvolvimento do capitalismo, em cada crise, se relançam estratégias com a finalidade de baratear o custo do trabalho, de esconder a exploração da força de trabalho, tanto das mulheres, como dos sujeitos coloniais, dos trabalhadores, em geral. E, com o Calibã e a Bruxa, a gente consegue entender também como os atuais mecanismos de ampliação dessa expropriação de terras, dessa exploração da força de trabalho e também dos recursos naturais e a opressão contra as mulheres,  estão relacionadas a essa necessidade constante do capitalismo de superar esses momentos de crise.

Então, a gente pensava muito sobre a questão do feminicídio na América Latina quando começamos a traduzir o livro e também sobre a questão do campo, porque, quando pensamos em traduzir, a gente estava discutindo uma edição da revista Geni que era sobre o campo e os movimentos populares da América Latina contra a expropriação de terras. Então, é um ponto importantíssimo da obra da Silvia Federeci, que traz uma inovação e um impacto importante. Eu acho que para o campo feminista marxista é a questão da acumulação primitiva, de entender que o fenômeno da caça às bruxas não é um fenômeno metafísico, digamos assim, quando a gente se dispõe de toda essa parafernália metafísica que está envolta do fenômeno. Porque, de fato, existe toda uma ideologia que sustentou este fenômeno. A gente começa a entender que o fenômeno da caça às bruxas foi um fenômeno material, ele aconteceu no corpo das mulheres. 

Inclusive, a Silvia Federeci dialoga muito também com o Foucault, quando ela fala sobre a questão do corpo, e quando a gente consegue se desvencilhar dessa parafernália metafísica, a gente consegue reconhecer como aquele fenômeno. Claro, não vamos também trazer uma coisa que aconteceu no passado e dizer que é o que exatamente o que acontece hoje, mas está relacionado a fenômenos que até hoje acontecem de forma semelhante e que estão muito próximo de nós, como falei, a questão do feminicídio. 

Então, eu acho que a lição política que aqui eu estou falando é mais sobre Calibã e a Bruxa, mas, isso depois isso também é desenvolvido nas outras obras da Silvia Federeci. Mas esta é a primeira obra da Silvia que foi traduzida para o português e lançada no Brasil, e inaugura o pensamento dela, que depois vai ser desenvolvido, inclusive na militância dela, porque o ponto zero da revolução fala muito sobre a campanha pela remuneração do trabalho doméstico, as wages for housework e também tem toda uma relação com esse primeiro argumento dela que é traçar essa origem histórica. 

Eu acho, então, que a lição política que a gente pode tirar da obra Silvia Federeci é que justamente o capitalismo, enquanto modo de produção, está necessariamente ligado ao racismo e ao sexismo, porque ele justamente se reproduz sobre uma série de desigualdades que foram construídas no corpo do proletariado mundial. Esse processo de reprodução do capital segue em curso diante de nossos olhos, inclusive em plena pandemia, mas existe um movimento de resistência, dos trabalhadores, das trabalhadoras, das mulheres, dos sujeitos coloniais.

Então acho que as obra das Silvia Federeci, tanto Calibã e a Bruxa quanto Ponto Zero da Evolução, nos incitam a lutar, nos fornecem ferramentas para pensarmos a nossa realidade, analisá-la e, a partir disto, traçar táticas estratégicas de luta. É justamente por isso que o Coletivo Sycorax é um coletivo de tradução entre mulheres, porque partiu da necessidade de tecer uma rede de resistência, inclusive pensando em como essas obras vão ser difundidas, que elas também têm que ser difundidas de forma gratuita e chegar na maior quantidade de pessoas possíveis, por conta de ser um projeto militante de formação política. Eu acho que as obras dialogam com a nossa visão política de mundo também. A gente pensa muito isso, em tecer essas redes de solidariedade nacional e internacionalmente. 

 

No que se refere à forma de fazer coletivamente, qual a importância de iniciativas como as do Coletivo Sycorax?
Cecília Rosas: 
A tradução coletiva é um processo que enriquece muito a tradução, porque acrescenta vários olhares diferentes, de vários repertórios em um certo texto. Em vários sentidos, editar um livro é um processo que tem muito de coletivo mesmo, que normalmente passa por muitos olhares, por muitas etapas e a tradução coletiva é uma camada a mais de coletividade nesse sentido, porque ela vai discutir esse texto, vai acrescentar várias maneiras de vê-lo, não só ler ele, mas também trazer para o português.

Justamente este é um processo que demanda muito tempo para ficar bom e acaba demandando uma participação muito intensa de todo mundo que está envolvido. Então é muito difícil que ele se adapte às exigências do mercado, isso em termos de prazo. E a gente também propõe novas maneiras de circulação do texto, porque todas as traduções ficam disponíveis online integralmente. A nossa proposta é que a tradução seja uma ferramenta política, de propor novos textos para o debate brasileiro e pensar como a tradução e circulação dos textos pode acontecer em outras lógicas que não de mercado. 

 

MULHER DE PALAVRA - COLETIVA
Os vídeos e os bate-papos do Mulher de Palavra - Coletiva estão disponíveis abaixo:
 

 

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