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Habitar Palavras: Erickson Martins

Herança da Pandemia

É desconfortante ter que aceitar
Que o que de mais valioso temos
É a vida incerta para se levar
E nela somos barcos sem remos

Sem leme, quilhas, velas nem lastro
Seguimos supondo o que há no infinito
À deriva, flutuando, no tempo-espaço
Cada qual em seu mundo restrito

Cada um, prepotente, supondo saber
Não só o roteiro, mas o ponto final
Ignorando que da viagem só se leva o viver
Paisagens gravadas no cofre mental

E quando no horizonte acena-nos a morte
Com seu imponente sobretudo escuro
E nos vemos instantes, deixados à sorte
Sem qualquer certeza sobre o futuro

Então nos invade a nostalgia
Lembrança de dias passados
“Ah se desse para reviver cada dia
Passado com nossos entes amados”

A pergunta que grita na mente:
Qual a razão da minha busca insana
Por riquezas sem conta, se obviamente
Sobre toda a vida a morte é soberana

Nada que acumulamos fora do coração
Nos pertence de verdade
Possuir, ajuntar é nossa ambição
Mas só serve a nossa vaidade

Valor é conceito relativo
E cada um tem sua balança
E quem do ouro é cativo
Nele põe a confiança

Sem saber que não tem dinheiro que guarde
O homem da morte iminente
Pode ser até que retarde
Mas nunca permanentemente

Perceber em meio ao trágico
A fragilidade real do viver
Faz a gente perceber o quão mágico
Cada momento pode ser

Mesmo em todo seu horror, a pandemia
Fez algo positivo acontecer
Fez a humanidade notar que temia
Mais o perder do que o morrer

E quando tudo isso passar
Que cada um consiga entender
Que de nada vale acumular
O que conta mesmo, é viver.

2020

O ano era 2020. Planeta Terra. Mais de sete bilhões de humanos o habitavam. Gostaria de dizer que pacificamente. Mas não. Era quase que o oposto disso. Haviam dissenções, disputas, havia também fome e miséria. E um dia, ninguém sabe ao certo de onde e nem como, emergiu a praga. Um vírus. De alta letalidade. Que espalhou terror em todo o mundo. Expandiu-se rapidamente por sobre os mares e tomou de assalto continentes inteiros. E a globalização e a modernidade dos velozes meios de transporte nunca foram tão nocivas. As pessoas atemorizadas se trancaram em suas casas. Empresas faliram, aeroportos pararam. Hospitais e cemitérios viram o colapso logístico de suas demandas contínuas e crescentes. Caos. Temor. E as mídias, feito abutres que se alimentam de podridão, contribuíam mais e mais para espalhar o medo. Rapidamente elegeram culpados, como era próprio dos indivíduos da época, pouco acostumados a experimentar percalços dessa magnitude. E a Terra definhou, assolada por esta inevitável e implacável tragédia. E fez-se o caos quando não havia mais leitos de hospital, quando não havia mais alimentos nas prateleiras e quando, enfim, passou a reinar o egoísmo. E cada um passou a viver sob o instinto reptiliano de autopreservação e cuidar só de si, ainda que ao custo da própria vida ou da vida do outro. Porque quando a morte se apresenta imponente, permanece o medo da mesma, mas perde-se o medo de matar. O ano era 2020. Éramos sete bilhões de pessoas quando tudo começou. E ainda há o registro triste nas canções que restaram da dor dilacerante de cada filho que enterrou seu pai e de cada pai que enterrou um filho.

“Sorveste do mundo a vida, da alma a sua essência,

Ó praga maldita. De tantos ceifastes a existência”.

Palavras gravadas na rocha de onde fora um ponto turístico e hoje me serve de sombra e de testemunha dos meus pesadelos mais horríveis. Nos quais quase sempre vislumbro corpos sendo despejados em valas comuns. Plantados como sementes que fazem brotar apenas lembranças amargas e florir nos rostos a inegável e inconfundível expressão da mais profunda tristeza, aquela que faz pesas os cantos da boca e causam uma meia lua invertida, e faz unir-se e elevar-se o centro das sobrancelhas, de onde o choro nos acena, úmido e pesado. E quando acordo elevo meu olhar na imensidão de onde posso ver os prédios abandonados, árvores nascendo em meio ao asfalto em todos os lugares onde haviam modernas cidades. E paro, resignado e sem esperança. Alimento de gravetos a fogueira que me aquece, hipnotizado pelo amarelo da chama em mescla com o laranja da brasa, onde aqueço o que sobrou do roedor que fora meu jantar na noite anterior e que nutriu meus pesadelos. O ano era 2020. Éramos sete bilhões de pessoas. Hoje somos quatro, sozinhos nesta imensidão de nada.

O que o tempo fez da gente

Me assola a sensação de que, de tempos em tempos, a história nos confronta a nós, raça humana, com percalços aterradores. Guerras, pragas, acidentes, catástrofes naturais (e não naturais), hora o risco iminente e prenunciado de uma colisão cósmica (que nos faz pensar nos dinossauros), hora o comportamento quase infantil de países que tem cada um, um botãozinho capaz de destruir o outro (e o resto todinho). Outra hora ainda, algum evento pandêmico aparentemente implacável que, na ameaça de nos tirar a vida, acaba por tirar-nos os abraços, os afetos, tão presentes no simples gesto de tocar. Tira também por vezes a sanidade mental, quando nos torna prisioneiros de um universo particular que nós mesmos criamos e que amamos, mas que passa a ser pequeno e inabitável para nós: nosso próprio lar. E tira-nos a sanidade relacional, quando nos forçamos a ver (todos) os outros como inimigos, enquanto contaminadores em potencial, legando a cada um (estranho) o quase pleno poder sobre a vida e morte. Mas não só isso. A possibilidade de tirar de nós as pessoas que, neste mundo denso, ainda amamos, e o que é a própria morte perto disso?  Estranho como algo que surge para atacar a vida tem a capacidade de agredir de modo tão completo, promovendo a falência da vida em tantos aspectos orgânico-biológicos; a vida sob uma ótica um pouco mais filosófica, aquela que abrange o “eu”, que é, em essência, um entranhado de realidades que se beijam sem muitas vezes nem se conhecerem; a vida financeira, que desaba mundos inteiros com um simples e curto: “obrigado pelos seus serviços”. Ou aquele sonho sonhado acordado por anos, construídos como que com peças de “lego” que o pequeno empresário vê desmoronar e que o torna muitas vezes o emissor da nefasta frase: “obrigado pelos seus serviços”. Mas, e sinceramente, obrigado pelos seus serviços, história. Porque são estes acontecimentos, e somente eles, que colocam o ser humano em contato (transformador) com a sua impotência e miséria inerentes a um ser feito de barro que quase sempre se esquece que o barro (sua matéria prima original) será de novo sua fórmula de base, no fim. Só seus toques desalentadores, história, são capazes de reconectar o homem consigo mesmo e com os outros, e com o autor do sopro que o promoveu de boneco de barro a um indivíduo gigantesco que de tão grande e ilimitado chega a pensar que é Deus.

 

Sobre o autor

Nascido em Nova Luzitânia – SP, Erickson sempre foi orientado pelos caminhos da leitura, aprendendo a ler aos 4 anos de idade. Suas primeiras experiências com a escrita foram aos 13 anos, em pequenos concursos e eventos culturais escolares. Aos 18 já publicava seus trabalhos no Jornal A voz do Povo na região e também em algumas compilações de concursos regionais. Aos 20 escreveu o Hino Oficial do Município de Nova Luzitânia entre outros. Formado em pedagogia, atua na condução de diversas atividades, dentre elas Oratória e Habilidade Verbal, além de prestar consultoria financeira a mais de 50 empreendedores locais e regionais, além de ser o fundador e presidente da Associação Comercial de Nova Luzitânia.

Habitar Palavras - Biblioteca Sesc Birigui

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