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Em busca da musicalidade em nós

Foto: Pixabay
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Texto introdutório: No Ritmo do Cuidado


Por Equipe do Espaço de Brincar do Sesc 24 de Maio

Nesta edição do Cuidar de quem Cuida, convidamos dois educadores parceiros do Espaço de Brincar do Sesc 24 de Maio, Tico Gomes e Heber Teixeira, para nos contar sobre as referências que orientam suas práticas com crianças, na perspectiva de estimular o contato com a musicalidade como forma de ferramenta de trabalho, de autoconhecimento e cuidado.

Para isso, é necessário redescobrir o som, o ritmo e a inventividade de cada um em produzir suas próprias sonoridades, para que, assim, se constitua um novo elemento pedagógico e cultural importante na relação lúdica com os interessados em explorar o som, os movimentos corporais e o canto como liberdades criativas.

A presença dessa dupla de educadores, alegrando e cantando histórias da nossa cultura popular, já rendeu boas histórias com os frequentadores no Espaço de Brincar. A experiência aponta alguns caminhos significativos para o convívio, quando na aproximação entre cuidadores e crianças, vemos o encantamento com as narrativas populares e uma musicalidade particular que parece surgir do encontro entre sons e corpos, mas que, no entanto, sempre esteve ali.

Além disso, quando a educadora ou educador se permite entrar em contato com sua sonoridade, sem pré-julgamentos, pode conhecer um pouco mais de si - seus ritmos, tons e harmonias - em um exercício de autoconhecimento. Desta forma, é capaz de compor, junto de sua comunidade, novas trilhas, novos arranjos, sejam eles musicais ou não.

Há de se considerar também que a formação de redes de apoio e cuidado envolvendo referências como a música, a arte e a cultura popular são formas de criar novas referências que podem fortalecer os cuidadores na medida em que propiciam o encontro destes com expressões culturais que auxiliam na construção de novos sentidos para uma prática cotidiana.

O texto a seguir traz um pouco das reflexões desses educadores sobre a musicoterapia como forma de expressão e criatividade em ambientes voltados à primeira infância. Para além disso, no contexto atual de pandemia e isolamento social necessário, acreditamos que a redescoberta da musicalidade pode fomentar momentos de fruição da criatividade, criação de vínculos e contribuir para que educadoras e educadores invistam em seu autoconhecimento e cuidado.
 


Foto: Acervo do Espaço de Brincar do Sesc 24 de Maio

 

Em busca da musicalidade


*Por Heber Teixeira e Tico Gomes

O impulso criativo (...) é algo que pode ser considerado como uma coisa em si, algo naturalmente necessário a um artista na produção de uma obra de arte, mas também algo que se faz presente quando qualquer pessoa - bebê, criança, adolescente, adulto, ou velho - se inclina de maneira saudável para algo, ou realiza deliberadamente alguma coisa. (WINNICOTT, 1975)
 

O brincar vai além da diversão e entretenimento. Ele é fundamental para a aquisição da linguagem verbal e não verbal, para o desenvolvimento da percepção corporal, para a inserção nas diversas relações sociais, para construção da criatividade, para o estímulo da curiosidade, para o florescer da atividade intelectual, entre tantas outras descobertas. Na infância, o contato com a música e com diferentes formas de arte potencializa todos os aprendizados, pois o ser humano antes de falar, canta, antes de andar, dança, antes de escrever, desenha e antes de raciocinar, sente.

A complexidade e velocidade do nosso mundo moderno e globalizado, além de sua imensa gama de estímulos proporcionada pelos meios de comunicação e pelas mídias digitais, acabam por nos afastar gradativamente dos fazeres criativos e artísticos. Experienciar a música como forma de conhecimento, autoconhecimento e como atividade lúdica e criativa proporciona ampla ressignificação da relação do ser humano com o fenômeno musical, reintegrando as práticas musicais às brincadeiras, às atividades diárias e ao imaginário socioeducativo.

Além disso, a prática musicoterapêutica, envolve a escuta, a decodificação sonoro-musical e a “re-criação”, composição e improvisação elaborada pelo outro. Podemos dizer que é fundamentada no fazer musical com objetivos não musicais. Se brincar é experimentar um sentimento de controle sobre o ambiente, consequentemente, a musicoterapia comportamental auxilia o desenvolvimento de novas habilidades incluindo-se a interação social.

As experiências musicoterapêuticas podem potencializar a neuroplasticidade que habilita a espécie humana para ser falante e cantante, sem dúvida os ganhos desses novos comportamentos são os princípios básicos da comunicação funcional, levando o ser humano ao domínio da modalidade comunicativa.

A capacidade de comunicar-se é algo independente da capacidade de manifestar-se através da palavra oral e se desenvolve em situações de interação com outras pessoas. Esta vivência compartilhada é inerente ao ser humano. É a experiência musical predominantemente não verbal, multissensorial, que nos interessa.

O corpo em movimento é nossa opção de fonte sonora para o rítmico. A voz é o instrumento melódico primário por excelência. Os instrumentos musicais são prolongamentos de nosso corpo, atuando como ferramenta que pode contribuir com a melhoria de habilidades de comunicação crítica de competência, ligadas à comunicação receptiva ou produtiva. De acordo com a prática baseada em relatos, a maioria dos praticantes de musicoterapia nos Estados Unidos está usando uma abordagem comportamental da musicoterapia ao trabalhar com crianças com Transtorno do Espectro Autista e suas famílias.

A Música, por ser uma área do conhecimento humano eminentemente criativa, acaba por estimular a criatividade como um todo e esta, por sua vez, está presente nas ações de qualquer pessoa. Crianças desenvolvem habilidades musicais desde muito cedo, e sabemos que elementos musicais podem ser percebidos pelos bebês desde antes do nascimento, e novas habilidades aparecem gradualmente nas diferentes fases da vida. As experiências sonoras em musicoterapia consistem no uso de elementos musicais como ferramentas que influenciam o estado físico, o comportamento e os afetos, pois o som praticado individual ou coletivamente é uma vivência importante para explorar a musicalidade presente em cada pessoa.

 

* Heber Teixeira é graduado em musicoterapia, trabalho com crianças com transtorno do espectro autista, é ator e brincante. Tico Gomes é artista, músico, bonequeiro e design de moda. Dedica-se à pesquisa e à prática das expressões populares e desenvolve trabalhos artísticos que fundem diversas linguagens.

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