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Literatura e arte em conjunção no projeto Ponto de Encontro

Com o intuito de manter o vínculo, além de garantir suporte e assistência ao público participante das ações de Trabalho Social com Idosos (TSI), a atividade Ponto de Encontro, do Sesc Vila Mariana, neste momento de pandemia, foi transferida para as plataformas digitais. Assim, foi possível a promoção de encontros e a criação de um espaço seguro para apoio, afetos, reflexões. 

"De espaço para acolhimento, os encontros evoluíram e passaram a se caracterizar mais como locais de criação coletiva e mediação de projetos, que levavam em consideração os interesses e conhecimentos prévios dos participantes", conta Juliana Viana Barbosa, animadora cultural responsável pelo TSI no Sesc Vila Mariana. 

Nesse processo de encontros virtuais, foram criados quatro contos coletivos, chamados: “Expectativa”, “A costureirinha”, “Alguns tons de azul” e “Carrossel”. 

A partir deles, o grupo teve a oportunidade de expandir a criação em diferentes universos, utilizando linguagens artísticas como o bordado e a pintura para dar vazão à criatividade e manifestar os temas dos contos em outros formatos. 

A seguir, você lê os contos e conhece os desdobramentos de cada um deles. As autoras são Ana Medeiros, Maria Cristina Godoy, Ervelina Semerjian, Ivani Roma, Helenice Sales, Marcia Umino, Mimi, Silvia Guerra, Sumiko Arimori, Wania Costa e Malu Consolo. 

EXPECTATIVA 

Fran aguardou um amanhecer ensolarado.  

Paramentou-se com cuidado e saiu a andar pelos arredores. Imunizou-se, banhando-se naquela brisa luminosa! Ah, finalmente!  

Ritmou o seu andar: um trecho lento, outro acelerado; irmanou-se com as árvores. Respirou amplo. 

Ao retornar, já de longe divisou algumas pessoas diante do seu prédio. 

Seriam conhecidos? 

Estranho... Aproximou-se um pouco mais e ocultou-se atrás de uma árvore, garantindo o anonimato. 

Alguns do grupo pareciam agitados; então, uma das mulheres... Aquele perfil, o balançar da cabeça, tão familiar... não, não podia ser ela! A vida não tinha o direito de lhe pregar uma peça assim!!! 

Ela surgia e desaparecia no burburinho. 

Fran, agarrado à árvore, paralisou. O rastro incandescente, que imaginava extinto! 

Risadas, cantoria, palmas... 

Súbito, um vendaval varreu a rua, levantou folhas, saias chapéus, tudo dispersou. 

A ciganinha sorriu, luminosa desceu a rua bailando. 

Uma poeira cobriu os olhos dele... 

E agora? Cadê? 

Seria imaginação? Tantos anos na casa de repouso... sair assim ao sol só traria alucinações!  

A ciganinha fora a razão de seu isolamento há 10 anos... sem a presença da mãe, resolvera fugir com o cigano da quermesse!  

Aplausos e tilintar de moedas tiraram Fran de seus devaneios, o grupo havia subido a rua novamente e agora ela se encontrava pertinho, só a árvore separava Fran de sua filha...  

Pelos batimentos, parecia colapsar. O bonitão bigodudo abraçava a ciganinha e conduzia todos ao veículo, quando carregado pelo vento, chegou até Fran um papelzinho com seu endereço. Um interminável choro lavou sua alma e todas imagens do dia. Quão covarde fora! Somente restou a expectativa de uma nova chance. 

Ruminando o passado, Fran tenta decifrar o papelzinho: “Que raio de escrita é essa?”  Uma poeira de estrelas o arrebata e o deixa num campo aberto com enorme tenda iluminada.         

Uma festa envolve toda gente. Esmeralda, olhos de prestas... pedras preciosas, vestes esvoaçantes, coloridas, amplos movimentos abre os braços. Os dois se rendem à música. Nada impede o reencontro.                                                                            

“Bamboleo bambolea. Porque mi vida yo la prefiero vivir así...” 

Para o conto "Expectativa", a proposta pautou-se no mergulho e na apropriação das cartas e do universo do tarô. Assim, o Ponto de Encontro do Sesc Vila Mariana passou a ter o seu próprio oráculo, criado pelo grupo de trabalho. Você vê o resultado abaixo: 

A COSTUREIRINHA 

Joana passava os dias na máquina de costura. 

As clientes iam e vinham, não conversavam. Não eram suas amigas. 

Dona Alice, da agência de viagens, trazia folhetos de turismo para copiar os modelos. 

À noite espalhava os folhetos na cama e escolhia um para viajar. 

Nada conhecia. Internet não tinha. A imaginação buscava o infinito através dos folhetos. 

Um dia, a caminho da loja de aviamentos, achou um envelope. Colocou na bolsa e se foi. 

Em casa, ao abrir o envelope e ver seu conteúdo, sentiu que era a oportunidade de mudar sua vida... 

Uma passagem de trem, somente ida, para uma das cidades que apreciara nos folhetos que Dona Alice lhe trouxera.  

Teria que atravessar todo o continente, mas isso não a perturbou. 

Trabalhou com afinco para finalizar todas encomendas de suas clientes,  não pretendia deixar nada pendente ao partir. 

Arrumou sua mala com antecedência. À medida que a data da viagem se aproximava, Joana ia sendo tomada por uma excitação que há muito não experimentava. 

No trem, observou aquele senhor distinto sentado na poltrona ao lado da sua. 

Vestia um terno de corte perfeito e elegante chapéu coco.  

Naquele momento lhe ocorreu que aquele senhor poderia ter perdido seu segundo ticket. Sim, exatamente a passagem que Joana encontrara. 

Joana olhou para aquele homem distinto e vieram vários pensamentos... “Devolver!!! Se fizer isso, não poderei viajar...” “Conversar, não seria elegante da minha parte começar a conversa, pois sou uma mulher direita e não posso me insinuar para aquele homem maravilhoso, não seria de boa índole...” Ficou a pensar, enquanto a viagem corria com perfeição. Mas seus pensamentos iam muito longe: “Será destino? Será que encontrei o homem da minha vida; não posso devolver o envelope, não tenho certeza se é dele!!” Ficou vagando nos seus pensamentos, quando o elegante senhor levantou-se e entre olhares ele disse!!!  

– Me dá licença... – nisso estava chegando o cobrador de ticket para pedir os bilhetes!!!! 

O senhor elegante passou por ela, seus joelhos se tocaram e Joana estremeceu. Pensou: “Isto é destino”. Ao ver seu bilhete, porém, o cobrador lhe informou que estava no vagão errado. Confusa, atravessou vários corredores até chegar ao vagão 9, assento 3B. Tremia. O que o cavalheiro distinto ia pensar dela ao voltar ? Que era uma qualquer ? Sentada no assento 3A estava uma senhora com um chapéu fora de moda, que lhe disse enraivecida:  

– Pensei que tivesse perdido o trem, Srta. Smit. – Joana sentiu um calafrio, quando, com voz baixa, lhe perguntou: – Alguém a seguiu? 

– Não, ninguém me seguiu, mas o nosso distinto senhor de chapéu coco, que observávamos na plataforma antes do trem partir, estava agora no vagão restaurante e, quando passei, levantou-se e fez um gesto como que me convidando para sentar ao lado dele. 

– Srta. Smith! Contenha-se! Não me venha agora com ideias românticas e sonhadoras! Você sabia que era ele! Temos que seguir com o nosso plano, aquele relógio de ouro com visor de diamantes que ele carrega no bolso do colete, preso naquela corrente de ouro magnífica, certamente vale uma fortuna considerável, que dará para vivermos bem o resto das nossas vidas. 

– Volte lá e dê um jeito de consegui-lo. 

Totalmente confusa, Joana obedeceu e voltou ao vagão restaurante. Assim que adentrou, o elegante cavalheiro levantou e fez o mesmo gesto anterior, como a convidando a lhe acompanhar à mesa.  

Com um sorriso tímido, Joana foi se aproximando até se ver sentada de frente ao cavalheiro misterioso, charmoso, perfumado, unhas bem aparadas e abotoaduras douradas. Seriam de ouro?  

Joana percebeu que iniciara uma deliciosa conversa com aquele estranho bonitão: O cavalheiro reclamou do bolo de maçã seco que estava comendo e Joana lhe passou a famosa receita que anotou ouvindo as conversas de suas clientes. Aproveitou e também passou a receita do antepasto de abobrinha e berinjela, quando o homem lhe disse que estava evitando comer carne vermelha.  

Joana contou de sua profissão de costureira e ele disse ser dono de uma confecção internacional, uma marca de roupa famosa e que iria investir num novo tipo de tecido chamado “jeans” e que estava à procura de novos profissionais ou sócios...  

De repente, o trem apitou três vezes, o cavalheiro tirou o lindo relógio cravejado de diamantes do bolso: a conversa estava tão boa que o tempo voou e já estavam chegando ao destino final.  

Joana elogiou o relógio e o homem sorrindo disse:  

– Esse é apenas um dos que tenho em minha coleção!!!! A propósito, meu motorista estará me aguardando na estação. Por favor, permita-me levá-la até seu hotel e gostaria de convidá-la para jantar hoje à noite. 

Joana sorriu e aceitou, não podia acreditar em seu destino: ontem era uma simples costureirinha e hoje iria jantar com um maravilhoso e rico homem e que poderia vir a ser seu sócio ou até mesmo seu futuro marido... finalmente a sorte estava a seu favor!  

Ao desembarcar do trem e subir no brilhante automóvel preto que o gentil cavalheiro lhe abria a porta, Joana olhou por sobre o ombro e pode vislumbrar a cara amarrada e irritada da senhora do chapéu fora de moda da poltrona 3A... Joana sorriu feliz e seguiu no carro rumo ao seu futuro... 

Para o conto "A Costureirinha", a proposta consistiu na construção de uma fronha dos sonhos, em que as idosas bordaram, com suas próprias referências e histórias pessoais, lindas obras de arte inspiradas nas técnicas do artista José Leonilson.  

 

ALGUNS TONS DE AZUL 

Dentre as seis filhas de Dona Cotinha, Marinalva era a única feia. O nariz comprido e curvo puxara ao bisavô estrangeiro, dizia a mãe. Quando criança, ao voar no balanço para alcançar uma nuvem, caíra de boca no chão. Os dentes permanentes ainda permanecem quebrados. Pouco falava. Nada sorria. Mas só ela tinha os olhos azuis do bisavô. Uma alvura de azul do mar de onde ele viera. 

Domingo de sol é manhã de igreja. Marinalva colocou uma máscara preta e sorriu para o espelho fosco. No Terminal Capelinha pegou o ônibus que a deixou na Catedral. Na Praça da Sé sentiu-se abençoada por trás da máscara e sob olhares novos sorria como nunca. De repente os olhos claros de Marinalva deram de frente com outros olhos de um fuzilante azul celestial. 

Esses olhos que deram de encontro com os de Marinalva eram do Padre Genaro, olhos de um azul celestial. O padre olhou para ela e disse:  

– Venha até a sacristia, vamos conversar um pouco antes da missa começar. – Marinalva balançou a cabeça e o acompanhou, tremia como uma vara verde e se perguntava: o que será que o padre quer comigo, mal me conhece!  

Assim que chegaram à sacristia, ele muito gentil perguntou: 

– Qual é o seu nome? 

Ela respondeu:  

– Marinalva. 

Ele disse: 

– Que nome bonito o seu. Vejo que está sempre na missa aos domingos, sua fisionomia é tão bela e seus olhos irradiam muita Luz e Fé. Filha, você quer me dizer alguma coisa? Algo em você é um mistério. Quer falar? 

Marinalva olhou para o padre e respondeu: 

– Não tenho nenhum problema, sou triste mesmo.  

– Como assim, minha filha, tão jovem e bonita?  

– Bonita eu? – risos – O senhor não deve estar enxergando bem – risos. 

Nisso, tocou o sino para o início da missa. Padre Genaro esboça: 

– Se quiser falar, conversamos depois.  

 “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” 

“Amém.” 

Marinalva inicia seu mergulho na fé. 

Cânticos, sininhos do coroinha e murmúrios de rezas tornam a missa grandiosa. 

O sermão é sobre Gênesis: “Deus observava o sono tranquilo de Adão e, já decidido, pensou que aquela paz estava por terminar. Então, extraiu Eva de sua costela”. 

À hora da Consagração, uma pomba albina entra triunfante e pousa sobre o bento cálice. Seus olhos azuis miram os de Pe. Genaro, seu pescoço gira rapidamente e focam o olhar celestial de Marinalva extasiada. 

Uma névoa invade a catedral. Os sinos tocam desesperadamente. O povo se precipita para fora em correria. 

Suspense. 

“Glória ti, Divina Providência!” 

Só permaneceram Marinalva e o Pe. Genaro. 

E a pomba? O que foi feito dela? 

Nesse momento, Marinalva percebeu que estava só na igreja e o Padre Genaro a observava do altar com um certo ar de preocupação e dúvida. A missa fora interrompida repentinamente na hora dos cânticos mais lindos. 

Aquele vendaval fora previsto pela meteorologia, mas ninguém imaginava que seria tão intenso a ponto de enevoar a igreja e fazer os sinos tocarem daquela forma, como se fosse o fim dos tempos.  

Seria algum aviso do céu? Parecia que alguma coisa muito importante estava para acontecer. 

Marinalva sentiu um desejo enorme de comentar o acontecido com o Padre Genaro, afinal, ela permaneceu lá dentro e não sentiu medo, estava na casa de Deus e parecia que o padre agora a envolvia com um imaginário abraço protetor e também seu olhar carinhoso parecia refletir seus próprios olhos tão azuis da cor do mar, tal como teria feito seu pai, se o tivesse conhecido. 

De repente, Marinalva sentiu aquela linda pomba pousar suavemente no seu ombro. 

Marinalva surpreendeu-se. Todo o seu foco ajustou-se a ela mesma e a tal pouso inesperado. Emocionou-se e retribuiu carinhosamente, encostando a testa na cabeça da ave. Sentiu-se tão bem que lentamente apoiou-se no banco, foi se sentando e recostando-se, fechou os olhos e entregou-se a esse sentimento tão amplo e profundo. 

Padre Genaro, que vira o desenrolar da cena, ficou sem saber o que teria acontecido. “Cadê a pomba?” Aguardou algum tempo e, curioso, resolveu perguntar:  

– Oi, Marinalva!  

Nenhuma resposta. Surpreendeu-se. Ela parecia dormir um sono profundo. Aguardou mais um pouco e tentou novamente. Ela apenas mudou de posição. Bom... pelo menos parecia estar tudo bem. 

– Marinalva, Marinalva. – repetia, agora mais alto. 

Aos poucos Marinalva foi despertando, ainda confusa. 

Era Cotinha, sua mãe. 

- Acorde, minha filha, há muito o que fazer. 

Marinalva lentamente foi desvendando o que ocorrera, aqueles olhos azuis celestiais eram de teu pai. 

Uma brisa suave acarinhou a cortina de renda branca da janela que tua mãe abrira. 

Uma pomba albina pousou suavemente no parapeito, olhou profundamente para Marinalva por alguns segundos e partiu. 

Marinalva compreendera tudo naquele momento. 

Saltando com energia da cama, pensou: “Não há o que temer”.  

Para a confecção do universo expandido do conto "Alguns Tons de Azul", foram selecionadas máscaras bordadas com os dizeres que as participantes gostariam de gritar para o mundo. 

CARROSSEL 

O dia amanheceu e Teresa, como já era de hábito, levantou, abriu a janela e voltou para a cama. Ela gostava de ficar olhando o começo do dia enrolada no cobertor. 

Finalmente de férias! Sem preocupações e sem correria. Resolveu tirar as férias no inverno para poder ficar assim, num lugar isolado, onde pudesse colocar a leitura em dia, meditar e avaliar que rumo queria dar para a sua vida. 

A pequena vila não ficava tão longe, dava para ir andando até lá, e ela adorava fazer caminhadas, mais um ponto a favor da escolha que ela fez. 

Alguém bateu na porta... 

Quem seria? 

Teresa se levantou e foi abrir a porta.  Sobre a mesinha do terraço encontrou uma flor com simpático cartãozinho. Sorriu. 

Fechou a porta e chamou: Filó! Duas, três vezes, e nada. Vestiu-se, calçou as botas e dirigiu-se à cozinha, onde tomou um copo de leite e abasteceu os pratinhos com leite, água e ração.  Com certeza Filó, escondida, só sairia para inspeção quando sozinha. Colocou o chapéu e caminhou até a vila. 

No endereço do cartão, após o café e pão recém assado, dirigiu-se aos fundos da cafeteria, onde funcionava a loja. Livros, quadrinhos nas paredes, bordados, velas, incensos, porcelanas lindas. Uma mistura mística e quase inútil, mas irresistível. Ao virar-se para outro lado... Como? O que a sua gata Filó fazia sentada no balcão!? 

Diante de um livro e de um estranho pêndulo, a felina recebeu seus afagos de sempre. Teresa deslizou pela sala, enquanto uma explosão de luzes e de arco-íris inundava o soturno ambiente. Não foi mero acaso. Com certeza, um mago orquestrou o evento. Os cristais foram arranjados estrategicamente para que da única janela os raios solares os atingissem brevemente, mas de forma deslumbrante! Emocionada ainda, ouviu uma voz rouca vinda da cafeteria, seguida de passadas pesadas em três tempos que se aproximavam. Imaginando avistar um adorável velhinho de bengala, ela se voltou prontamente para a porta: – Oh!... 

Imediatamente seus olhos ficaram marejados: O velhinho parecia ter as feições de seu querido pai, falecido há dois anos, no fatídico 2020, com Covid-19. Também foi quando terminou seu casamento. 

Com terapia e a companhia de Filó, conseguiu vencer a depressão e tirou um grande aprendizado dessa fase difícil de sua vida: tudo passa... Agora, Teresa vivia um dia de cada vez, saboreando cada minuto do milagre da vida.  

Uma brisa faz os sinos de vento tilintarem e raios de sol atravessarem os cristais, fazendo Teresa voltar ao presente.  

O velhote não tem mais as feições do seu pai, fora apenas a saudade pregando-lhe uma peça.  

Ele se aproxima, acaricia Filó que ronrona ao seu toque. O velho sorri e cumprimenta:  

– Namastê! 

Teresa retribuiu sorriso e cumprimento... Voltou, pensativa, à pousada, refletindo sobre o que tudo ali lhe dissera... Sim, porque havia um significado especial, ela sentia, mas ainda não entendia. 

Naquela noite, serena, adormeceu com facilidade. O pai lhe surgiu em sonho e conversaram bastante.  Quando acordou, sentiu-se diferente, mais confiante, pensando em tudo o que vivera, sobre o pai e o ex-marido. Um caminho começou a delinear-se em sua mente. Já o tinha, em intuição, mas agora parecia mais claro. Filó a observava, com cumplicidade. Cristais... Brilho... Luz... Tudo isso lhe bailava na mente, como num carrossel de bonita leveza.  

E agora, Teresa? 

Teresa escolhera aquele chalé na pousada por não ser sombrio. Mas suas sombras a acompanharam. A noite se aproximava. Resolveu colocar a leitura em dia. Tirou da mochila os dois livros que trouxera e foi sentar na varanda.                    

Abriu o volume de Machado de Assis e leu: “O gato não nos afaga; afaga-se em nós”. Olhou para trás e viu Filó que do sofá a fitava desconfiada. “Melhor deixar Memórias Póstumas para depois”, pensou. Pegou o Evangelho e uma página caiu no chão: a Oração do Perdão. Enquanto via a vila emoldurada pelo pôr do sol, lia a oração várias vezes em voz alta. Concluiu que já era hora de perdoar seu pai, que foi querido, mas que nunca a quis; de apagar da memória o ex-marido que deixou de amá-la; de encontrar alguém para se deixar afagar. A noite chegou e um brilho piscante na vila a atraiu. Trancou a porta, abriu um sorriso e seguiu em direção às luzes coloridas para girar no Carrossel. 

Para a expansão do universo do conto "Carrossel", foram criados cavalinhos de origami para serem espalhados no mundo, como proposta de intervenção poética nos espaços públicos vazios pela pandemia e muito carentes de calor humano. 

Para essa construção coletiva e mediação, o grupo contou com o suporte do Coletivo Meio Fio, representado por Carol Stoppa, que atuou junto às idosas nos encontros online em parceria com a técnica de Programação Juliana Viana e a educadora Vanessa Gonçalves. "Ninguém e nada é capaz de conter um coração livre e inquieto. Isoladas em suas residências, essas mulheres mostraram que a liberdade e o pensamento não têm fronteiras e que o espaço, ainda que virtual, é sim frutífero, acolhedor e passível de muitas trocas."  

As reuniões continuam no ano de 2021 e você, com mais de 60 anos, pode e deve fazer parte! 

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