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Dia Mundial da Escuta e as mudanças ocasionadas pela pandemia e distanciamento social

Microfones são utilizados para captar os sons dos ambientes. Crédito: Thiago Ruiz
Microfones são utilizados para captar os sons dos ambientes. Crédito: Thiago Ruiz

Por Thiago Ruiz*

No dia 18 de julho é celebrado o Dia Mundial da Escuta. A data foi instituída em 2010 pelo World Listening Project. O WLP é uma organização internacional sem fins lucrativos, dedicada à promoção e compreensão do mundo e de seu ambiente natural, sociedades e culturas por meio das práticas de escuta e gravação de campo. A data foi escolhida em homenagem ao nascimento do compositor, educador musical e autor canadense R. Murray Schafer (1933), influente por desenvolver, junto ao grupo de pesquisa World Soundscape Project, as ideias fundamentais sobre os conceitos de paisagem sonora e ecologia acústica na década de 1970.

A paisagem sonora pode ser compreendida como a produção de sons ligados a uma paisagem urbana ou rural. Uma vasta sinfonia onde qualquer pessoa é encorajada a praticar uma escuta ativa, a fim de desenvolver a apreciação crítica dos sons ambientais que escuta.

Já a ecologia acústica é um campo de estudos voltado às preocupações que envolvem a relação dos seres vivos com o seu ambiente sonoro e os efeitos que surgem dessa relação.

A partir da escuta atenta, muitos compositores, artistas e pesquisadores que lidam com a criação sonora passaram a registrar as paisagens com equipamentos de gravação. O material poderia servir para futuras produções que envolvessem os sons das grandes cidades, ambientes campestres, ou mesmo florestas de difícil acesso. Com esses registros, também poderiam demonstrar o aumento do volume sonoro de um centro urbano ou o desaparecimento gradual dos sons de uma fauna específica. Esse método de registro sonoro recebeu o nome de gravação de campo.

Recentemente, registrei em São Paulo o som do vento causado pela passagem do Ciclone-bomba no Sul do Brasil em 1/7/2020. Ouça abaixo:

Em 2020 o Dia Mundial da Escuta dedica-se ao tema “O Campo Coletivo” (Collective Field), um convite à reflexão sobre o mundo que pensávamos conhecer, mas que nos fez recuar e reagir ao silêncio e aos novos ruídos do momento atual. A inesperada pandemia de COVID-19, o estabelecimento da quarentena obrigatória, o esvaziamento de espaços públicos e a concentração em espaços de vida privada modificaram hábitos e rotinas, nos provocando à revisão dos modos como nos conectamos e compartilhamos individual e coletivamente.

Durante este período, assistimos a movimentações na esfera pública como grandes manifestações antirracistas em diversos países do mundo, expressões de apoio ou desaprovação de governos vigentes, o clamor de profissionais de saúde reivindicando melhores condições de trabalho. Mas também experimentamos momentos em que o silêncio das ruas preponderou, vizinhos ouviam música alta em plena tarde, crianças brincavam alegremente e pais levando os sons do trabalho remoto para o convívio com seus filhos.

Atento a esse novo contexto, o Dia Mundial da Escuta propõe aos participantes expressarem suas jornadas recentes pelo que foi, o que é e o que será evocado a partir dessas mudanças, por territórios sonoros permanentemente em construção. A data nos convida a uma maior consciência de escuta e de conexão do indivíduo com o todo ao qual pertence, coletivo e ambientalmente. Nesse sentido, as novas tecnologias de comunicação e os novos modos de compartilhamento contribuem para a popularização da data e do tema paisagem sonora.

Por meio da gravação de áudios, vídeos, relatos escritos ou falados, os participantes podem expor o modo como os sons são produzidos, silenciados ou mesmo potencializados na paisagem sonora local de suas residências, locais de trabalho, ou o entorno sonoro da região onde vivem e trabalham.

Os arquivos de vídeo ou áudio podem ser realizados com smartphones, câmeras digitais ou webcams, assim como os relatos falados, individuais ou coletivos. O que vale é a criatividade e a imaginação para pensar e expressar sobre os sons que chegam até os nossos ouvidos e como podemos processar, transformar e agir sobre eles. Assim, em meio às novas condições que surgem em tempos de mudança, qualquer pessoa com ou sem conhecimentos prévios está convidada a investigar os vários modos de escuta do mundo e sua fábrica de sons que por vezes passa despercebido, mas que nos rodeia e aguarda por ser descoberto.

Dicas de exploração na quarentena sobre o Dia Mundial da Escuta

Com o desejo de auxiliar os interessados a explorar os sons das paisagens sonoras durante o período de isolamento social, sugerimos algumas páginas na Internet que trazem os diversos modos de lidar com o som e a escuta na criação de mapas sonoros que podem incentivar nossa curiosidade e instigar a criatividade sobre os sons que nos cercam.

SP Soundmap – Mapa Sonoro da Cidade de São Paulo é a proposta criada e mantida pela artista sonora Renata Roman desde 2012. O projeto consiste em uma criação coletiva de um banco de dados sonoros com as paisagens sonoras específicas da região metropolitana da Capital e Grande São Paulo. A página funciona de modo muito semelhante aos mapas disponíveis online, e os arquivos sonoros são ouvidos ao clicar sobre os marcadores de localização em rosa. Para participar os interessados devem enviar os arquivos de áudio em qualquer formato para o e-mail do projeto spsoundmap@gmail.com, contendo a localização precisa da gravação sonora com latitude e longitude (o que pode ser obtido pela página do projeto LatLong.net).

#StayHomeSounds – projeto sonoro colaborativo com o intuito de criar um mapa sonoro global relacionado às ações de combate ao COVID-19 em vários países, como o distanciamento social e o lockdown. Para escutar os sons, clique sobre os marcadores verdes no mapa-múndi da página web. Por meio dos sons gravados das janelas ou no interior das residências, qualquer pessoa interessada pode participar, contando sua história de isolamento e os modos de enfrentamento à pandemia. Os interessados em submeter arquivos de áudio para o projeto devem preencher um formulário, contendo endereço de e-mail, título do arquivo, localização do som gravado com latitude e longitude, e uma breve história sobre o registro sonoro da sua região e o novo coronavírus. O preenchimento e a submissão do arquivo sonoro (somente extensão .WAV) no formulário devem ser feitos em inglês.

 

*Thiago Ruiz é educador do Espaço de Tecnologias e Artes no Sesc Vila Mariana. Formado em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, e mestrando em processos e procedimentos artísticos pela UNESP - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Desenvolve pesquisa artística entre configurações sonoras e visuais, por meio de instalações, objetos, traquitanas, peças sonoras, meios gráficos, entre outros. Pratica e acredita em processos criativos de aprendizagem.

 

Leia também: Como tornar a escuta ativa e qualitativa parte da rotina durante o período de isolamento social?

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