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A ancestralidade na dança do Marabaixo

Foto: Matheus José Maria
Foto: Matheus José Maria

Por Célia Souza da Costa*

 

“O pouco com Deus é muito
O muito sem Deus é nada
Quem acredita em Deus está sempre na boa estrada [...]”
Marciana Nonata Dias

 

A dança do Marabaixo é uma manifestação cultural de influência africana, patrimônio cultural do estado do Amapá. Os cantos, ou melhor, os ‘ladrões de Marabaixo’ são versos improvisados que no primeiro momento relembravam a saga dos navios negreiros na travessia do Oceano Atlântico. Os passos de Marabaixo são compassados e representam os negros escravizados arrastando as correntes e bolas de ferro como forma de simbolizar o sofrimento, a dor e o desalento da escravidão. No segundo momento, os 'ladrões de Marabaixo' retratam o cotidiano das comunidades afro e quilombolas do Amapá, onde se realizam as festas tradicionais, se dança, se bebe gengibirra e se saboreia o cozidão. Os ladrões de Marabaixo são formas de registro de história oral de acontecimentos do dia a dia, como por exemplo, o ladrão: “Aonde tu vais rapaz por esse caminho sozinho, vou fazer minha morada lá nos campos do Laguinho”, retrata o remanejamento dos negros do centro de Macapá para o Laguinho na década de 1940, pois no centro foram construídas as residências do secretariado do então governador Janary Gentil Nunes.

Essa tradição é transmitida de geração para geração e se manifesta tanto na zona urbana quanto na zona rural. De acordo com Videira (2014), “o Marabaixo é uma tradição afroamapaense festivo/religiosa que une ciclos geracionais num período anual chamado de Ciclo do Marabaixo”. Esse ciclo é resultado do sincretismo entre a dança e a religião católica, pois ele inicia após a Quaresma e a Semana Santa. Essa manifestação religiosa acontece em várias comunidades negras, com homenagens ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade. Outro ponto marcante do Marabaixo é o Encontro dos Tambores criado em 1996. O evento reúne várias comunidades urbanas e rurais  que se encontram para dançar Marabaixo e Batuque na capital Macapá e também para comemorar o dia da Consciência Negra (20 de novembro). O nome escolhido para o encontro se deve a importância do tambor e das caixas de Marabaixo para o ritmo da dança, pois são instrumentos de percussão produzidos artesanalmente com o uso do couro de vários animais, como da Sucuri ou Sucuriju.

Quanto à origem do nome Marabaixo, existem várias versões atribuindo significados à palavra. A mais conhecida é que negros escravizados na travessia do Atlântico cantavam nos navios negreiros, “mar acima e mar abaixo”. Outra versão é que Marabaixo é originado do Morabit ou Mourabut significando “sacerdotes dos vales”; ou ainda está ligado ao Marabutoou Marabut, do árabe Morabit “sacerdote dos malês”. Os Malês foram negros escravizados de origem islâmica que também foram transportados para o Brasil para servir aos interesses da exploração.

Segundo Fernando Canto (1998) não há uma data específica para o surgimento do Marabaixo, mas existem evidências históricas que o Marabaixo se originou no Mazagão, depois foi para o Curiaú, Igarapé do Lago, Maruanum e Macapá. No Amapá, as comunidades marabaxeiras atribuem o significado da dança a memória do sofrimento de negros jogados dos navios negreiros “Mar-a-abaixo”. Assim, o Marabaixo surge como uma herança da formação de comunidades afro e como um movimento de resistência cultural.

Uma das grandes conquistas culturais e políticas do Marabaixo foi o título de Expressão Cultural Amapaense, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil no dia 08 de novembro de 2018 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN.)  Na luta pelo reconhecimento do Marabaixo como Patrimônio Cultural do Brasil, as comunidades e grupos de Marabaixo se mobilizaram e reivindicaram junto ao IPHAN esse direito, “fruto da organização e identificação predominante entre as comunidades negras do Amapá, o Marabaixo é uma expressão cultural de devoção e resistência que representa tradições e costumes locais” (BRASIL/IPHAN, 2018). O IPHAN atribui aos negros escravizados a autoria do Marabaixo que por meio do sincretismo religioso começaram a fazer promessas aos santos e assim que a graça era alcançada, para comemorar faziam um Marabaixo.

*Célia é professora e jornalista, doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Pesquisadora sobre as comunidades e cultura do Distrito do Maruanum.

A íntegra deste artigo está disponível para download aqui.

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