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Sobre um movimento vivo e pulsante que não pára, não pode ser parado e não tem volta

*por Ellen de Paula e Gabriel Cândido
Idealização, Direção Artística e Curadoria de Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo

Foi Abdias do Nascimento quem disse que um teatro genuíno é como um mergulho nas raízes da vida e, em se tratando da vida brasileira, qualquer tentativa de excluir os negros de seu centro vital só seria possível por cegueira ou deformação da realidade. Podemos nós dizer que é do lugar em que essa deformação opera e dos efeitos socioculturais e sociopolíticos que dela emergem que fabulamos uma certa concepção de Teatro Negro: negro no sentido de corpo, portanto, ancestralidade, experiência, saber e ciência; Teatro no sentido de modos de concepção e organização do pensamento, portanto, tecnologia, ética, estética e poética. Se falamos, então, Teatro Negro, evocamos a produção de pensamento dos corpos pretos, de antes e de agora, e o modo como estes, por meio de uma tecnologia própria e do ponto de vista ético e político, o agenciam numa concepção poética, cuja estética é forjada desde a experiência e a ancestralidade como fontes primárias do saber e da ciência que estes corpos produzem e vivenciam.

A partir desta concepção inaugural de Teatro Negro, realizamos a curadoria para Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo. Para isto, observamos, no compasso da história, a cidade de São Paulo como território fundamental para a consolidação cultural, política e econômica do Teatro Negro no Brasil. Nessa observação, não ignoramos as precárias condições de trabalho a que artistas pretas e pretos ainda estão submetidos e a ausência de políticas institucionais e curatoriais que assumam e fomentem as artes negras como estéticas contemporâneas, capazes de gerar sentidos e criar identificações com diversos públicos. Nossa observação, portanto, é enfática no que diz respeito a um movimento político gerado por artistas negras e negros que, no decorrer da história, têm possibilitado aos corpos negros romperem com o lugar de objeto para assumir o lugar de sujeito, tornando-se enunciadores de histórias, poéticas, estéticas e políticas presentes na cena e nos modos de produzir os seus espetáculos. Não por menos, nos últimos 15 anos, aproximadamente, da periferia ao centro e do centro à periferia paulistana, é crescente o número de companhias, grupos e coletivos que se formam sob o prisma do Teatro Negro.

Neste processo, temos experimentado, por meio de inúmeras produções artísticas, o encontro intergeracional entre artistas pretas e pretos, que vêm de antes e que chegam agora, e vivenciado organicamente o encontro, o tensionamento, a atualização e a inauguração de modos de criação e concepção teatral que evidenciam a potência do saber preto, vivo e dialógico com o tempo em que é produzido. É esta pluralidade de gerações, poéticas e modos de fazer que encontramos lado a lado na programação de Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo, por entendermos ser esta uma forma de observar, compreender e testemunhar, num recorte temporal, de onde viemos, por onde caminhamos, onde estamos, para onde e por onde seguimos como fazedores de arte preta em toda a sua diversidade.

E, se evocamos as presenças e as forças de quem vem antes, como não ir ao encontro de Ruth de Souza e toda a grandeza de mulher negra e artista que dela conhecemos? Como não reconhecer a importante trajetória de uma mulher negra artista que desafiou as condições que lhe estavam impostas para marcar com o seu corpo o teatro, o cinema e a teledramaturgia do Brasil? Nós saudamos, homenageamos e agradecemos a Ruth de Souza, a quem afetivamente chamamos de Dona Ruth, num gesto de respeito à ancestralidade que ela representa, por meio da qual nos conectamos simbolicamente com cada uma das mulheres negras que estão, a seu modo, tecendo caminhos para si, ao passo que abrem e criam possibilidades de caminhos para tantas outras e outros.

Celebrando e reconhecendo a existência de Ruth de Souza, concebemos um conjunto de ações artísticas e formativas que compõem a programação do festival no formato de Giras de Conversa e Quilombo Artístico. Com o tema Ruth de Souza: um prólogo para a cena negra no Brasil, a primeira Gira de Conversa é proposta como espaço de diálogo movido pela trajetória e pelas memórias da atriz, na compreensão da importância de sua carreira, em relação às artes da cena, para gerações de artistas negras e negros no Brasil. Denominada De Ruth de Souza às gerações artísticas atuais: porque dizemos Negro o teatro que fazemos?, a segunda Gira de Conversa tem como rastro a presença da atriz para debater aspectos que determinam, num dinamismo histórico e político, a necessidade de utilizarmos o marcador racial em nossas produções artísticas contemporâneas. Em nosso Quilombo Artístico: Femenagem à Ruth de Souza, Capulanas Cia de Arte Negra, Clarianas e Zona Agbara se aquilombam em um potente processo de fabulações poéticas que emergem de seus campos de pesquisa-criação para ir ao encontro de Ruth de Souza e se abrir a muitas outras mulheres negras. Desse bonito aquilombamento entre os três grupos e coletivas da zona sul paulistana, dá-se vida ao Ato Femenagem à Ruth de Souza, como uma celebração pública pelo que em nós, artistas negras e negros, e sociedade brasileira em geral, Dona Ruth mobiliza.

Entre os que vêm de antes e os que chegam agora, nossa curadoria procurou observar os grupos, coletivos, companhias e artistas que reafirmam o Teatro Negro como território poético e político de suas produções, dentro de uma perspectiva de teatro de pesquisa. Na extensão disso, interessou-nos também o movimento individual e coletivo presente no fazer de artistas negras e negros que, por desejo e/ou necessidade, transitam pela dança, música, performance e audiovisual, trabalhando nos limites das fronteiras de linguagens ou até mesmo promovendo rompimentos que as cruzam e inevitavelmente tensionam o próprio teatro. Participam da programação de Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo: Invasores Cia Experimental de Teatro Negro, Coletivo Negro, Cia Os Crespos, Capulanas Cia de Arte Negra, Carcaça de Poéticas Negras, Coletivo Legítima Defesa, Zona Agbara, Clarianas dentre outras artistas, pesquisadoras e pesquisadores. Da potência criativa de cada grupo, coletivo e artista tecemos uma programação que reúne espetáculos teatrais, leituras dramatizadas, performances, contações de histórias, show musical, giras de conversa e quilombo artístico.

Nesta programação, muito embora tenhamos em comum o território poético e político que se reafirma Negro, as concepções artísticas apresentadas em cada obra são tão diversas e imprevisíveis que não podemos afirmar, sobretudo na contemporaneidade, que exista apenas uma concepção possível de elaborações de temáticas, dramaturgias, encenações e atuações. Nesse sentido, estamos diante não de um Festival de Teatro Negro senão de um Festival de Teatros Negros.

Assim, Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo é uma celebração da história dos Teatros Negros paulistanos - não como ode ao passado, mas como memória, acontecimento e fabulação de um movimento vivo e pulsante que não pára, não pode ser parado e não tem volta.

Axé!

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FICHA TÉCNICA

Idealização, Direção Artística e Curadoria: Ellen de Paula e Gabriel Cândido
Produção: Aquariane Produções Artístico Culturais 
Realização: Sesc São Paulo

Equipe Aquariane Produções Artístico Culturais
Coordenação: Ellen de Paula e Gabriel Cândido
Assessoria de Imprensa: Kelly Santos 
Identidade Visual e Projeto Gráfico: Silvana Martins
Registro Audiovisual: Thais Arruda e Jerê Nunes (Coletivo Sobre.Olhar) 
Assessoria Jurídica: Bruna Cândido

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Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo acontece no Sesc Interlagos, nos meses de outubro e novembro. Para conhecer a programação completa, clique aqui.

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