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“O que Mancha”, processo de criação coreográfica da transformação poética em corpo físico

O Que Mancha | Foto: Paula Ramos
O Que Mancha | Foto: Paula Ramos

A experiência do corpo e seus movimentos integrados ao espaço e a própria interioridade física traz a unicidade de uma transformação poética, consolidando a linguagem corporal como um jogo complexo que ganha formas por meio das diversas possibilidades que intermediam a transição entre materialidade e o abstrato.

Mobilizando o que é insubstancial para uma certa concretude, o movimento dos corpos na dança contemporânea projeta um conjunto de intuições e expressões que concluem na tradução entre o objetivar e o transcender do caráter lúdico e também afetivo de uma ideia, de um conceito e de uma estética construídas sobre as vivências cotidianas.

Em continuidade à pesquisa do Sesc Avenida Paulista em dança contemporânea, priorizando trabalhos que se dedicam à experimentação na linguagem, O Que Mancha é o novo projeto de partilha e criação em dança de Bia Sano e Eduardo Fukushima. O trabalho que propõe desenvolver as possibilidades de experimentação no processo de pesquisa coreográfica, com estudos sobre música e iluminação, acontece na Unidade de 23 a 26 de julho, com ensaios e laboratórios de pesquisa com participação de Miguel Caldas e Rodolphe Alexis, nos estudos sobre som, e Hideki Matsuka e Igor Sane, em iluminação.

Desde 2011, Bia Sano e Eduardo Fukushima realizam parcerias, mas é em 2018 que suas experiências artísticas se unem e, também, se entrelaçam às de Michal Borczuch. A convite do diretor de teatro polonês, que participou do prêmio “Rolex Mentor & Protégé Arts Initiative”, a ação de flanar, perambular, vagar, e andar à deriva com a experiência no corpo tornou-se parte da residência de Fukushima e Sano, em colaboração ao projeto “Le Flâneur”, desenvolvido em Varsóvia e expandido para São Paulo.

Essa nova criação, ainda em processo e interdependente, com subsídio de pesquisa da “Rolex Arts Institute” em Genebra e co-produção do “Nowy Teatr”, em Varsóvia, une Sano e Fukushima com “O Que Mancha”, no espaço Arte II do Sesc Avenida Paulista.

FICHA TÉCNICA
Concepção, criação e direção: Beatriz Sano e Eduardo Fukushima
Dramaturgia: Júlia Rocha
Performance: Beatriz Sano e Eduardo Fukushima
Iluminação e espaço cênico: Hideki Matsuka e Igor Sane
Som: Miguel Caldas e Rodolphe Alexis
Figurino: Alex Casimiro
Produção executiva: Carolina Goulart



Abrindo o diálogo sobre este projeto, entrevistamos Beatriz e Eduardo:

EOnline: “O que Mancha”, de onde surge esse título?
Bia e Eduardo: 
Em setembro de 2018, realizamos uma residência na Polônia, pois este dueto faz parte de um projeto maior em parceria com o diretor de teatro polonês Michal Borczuch que nos convidou para o seu projeto chamado “Le Flâneur”, que basicamente tem como objetivo principal relacionar a ação de flanar, perambular, vagar, e andar à deriva com a experiência no corpo. Nós caminhamos por Varsóvia, Auschwitz e Cracóvia e Michal Borczuch com sua equipe caminharam pela cidade de São Paulo e depois dessa primeira residência, cada um em sua cidade, estamos criando dois trabalhos independentes que se juntarão nesse final de ano em Varsóvia. Para nós, foi uma experiência muito forte caminhar pelos centros de concentração nazistas em Auschwitz, e em áreas dos guetos judeus em Varsóvia e Cracóvia, sentimos no ar os resquícios de cidades destruídas pelo nazismo na segunda guerra mundial e, de volta ao Brasil, começamos a trabalhar essa memória corporal em diálogo intrínseco com nosso atual momento político. Impossível não fazer relações. E chegamos na palavra mancha, manchas invisíveis que historicamente permanecem no ar. Ou, ao expandir a palavra mancha, relacionamos como algo que sobra, que marca, limita, funde, borra e distorce. E, ao mesmo tempo, estamos desenvolvendo o que seria essa qualidade de mancha em nossos corpos.

EOnline: Qual o primeiro ponto de partida para pensar em um laboratório de criação em dança?
Bia e Eduardo: Tem fases do processo de criação de um espetáculo que é preciso se debruçar na experimentação de iluminação e sonoridade, sair um pouco da nossa vazia sala de ensaio, sair da imaginação e experimentar a materialidade da luz e do som, e criar um diálogo de fato entre dança, luz e som. É muito raro no nosso país essa oportunidade de trabalhar em teatros, nossos teatros estão apenas para apresentações já “prontas” e não para a produção e fomentar o processo de criação para a realização de obras mais complexas. Costumamos a trabalhar a iluminação e demais recursos que o espetáculo pede na imaginação e nas estreias ficamos loucos nessas junções. Felizmente conseguimos 5 dias no Sesc Avenida Paulista e juntamente com Felipe Diniz (programador) decidimos abrir esse trabalho para estudantes e interessados em iluminação e composição musical. Os participantes desse laboratório acompanharão uma fase importante na concepção de um espetáculo, a relação entre a dança, luz e música. Penso que essa experiência poderá contribuir na formação dos estudantes dessas áreas.    

EOnline: Sobre som e iluminação. Em um aspecto mais técnico, qual seria a maior delicadeza na captação e produção sonora, e de sombras e texturas do espetáculo?
Bia e Eduardo: 
Na parte sonora de "O que Mancha", queremos construir toda a musicalidade a partir das nossas vozes captadas por microfones (estamos trabalhando na mistura entre voz e movimento), e gostaríamos de descobrir como isso se dará em tempo real a partir do trabalho de operação dos microfones, a maior delicadeza está nessa operação para evitar microfonia e ruídos. Não sabemos ainda se depois vamos delimitar uma trilha sonora fixa, ou a musicalidade será sempre construída em tempo real ou se futuramente usaremos as duas opções. Esse trabalho está sendo orientado pelos músicos parceiros, Miguel Caldas e Rodolphe Alexis.

Na parte de iluminação, estamos pensando em como borrar o olhar do público, gerando o lusco-fusco e o que é visível ao olho vai sendo manchado, a imagem vai ficando sem contorno, sem linha, a forma vai se diluindo, cegueira através da luz e não pela escuridão. O posicionamento dos refletores formará um paredão de luz no fundo do palco e em direção ao público. Durante a dança, a intensidade do paredão de luz vai crescendo até clarear imensamente os olhos daquele que vê. O trabalho de criação de luz está por Hideki Matsuka e a operação de luz por Igor Sane.  

EOnline: Assim como em outras práticas corporais, seja nas artes ou nos desportos, há a força. Na dança contemporânea parece que essa força é um desenvolvimento progressivo da relação entre o corpo e o espaço em que se expande. Pensando nessa relação, como vocês trabalham essa questão da força, corpo, movimento neste processo de criação?
Bia e Eduardo: 
Nós estudamos e trabalhamos com técnicas corporais japonesas e chinesas que carregam entendimentos específicos sobre o uso da força que se aliam também com diversas práticas de artistas da dança contemporânea. Nessa perspectiva, o ponto de partida da força não começa pela musculatura superficial do corpo, a ideia de força em nossas práticas está aliada com a respiração, com os ossos e com o relaxamento, ou seja, a força é uma construção do mais profundo do corpo até chegar na musculatura. Claro que o tempo todo usamos toda a musculatura, no corpo e na dança tudo caminha junto, mas a força muscular não é o foco ou o ponto de partida do movimento. Estamos trabalhando com qualidades opostas de movimento, com movimentos rápidos e cortados e com movimentos lentos, fluidos e quase pausados. Como dissemos anteriormente, estamos juntando a voz com o movimento e para conseguir a duração dessa qualidade estamos descobrindo que é fundamental o trabalho de respiração e relaxamento.

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