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A bailarina Dorothy Lenner apresenta a performance Wabi Sabi

Ex-aluna de Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado e Takao Kusuno, Dorothy apresenta a performance Wabi Sabi ao lado de duas jovens dançarinas, numa abordagem sobre o ciclo da vida.

A arte não tem idade. Conforme você vai mudando, descobre novas formas de se expressar e se adapta às circunstâncias”.

Esta recente afirmação de Dorothy Lenner, dona de uma vivacidade inacreditável, é a ideia central de Wabi Sabi, performance (ou ocupação cênica) com diferentes linguagens artísticas que ela protagoniza, de 12 de novembro a 11 de dezembro, no Sesc Ipiranga, ao lado das dançarinas Beatriz Sano e Júlia Rocha.

Wabi Sabi é exatamente sobre esta adaptabilidade, e sobre a descoberta da beleza na imperfeição e a aceitação do ciclo da vida e da morte.

Dorothy traz para a cena suas memórias, as marcas do corpo e mostra o tecer do tempo em gestos, olhares, durezas, falas. Os cabelos brancos e os gestos adaptados pela limitação física da idade são contrapostos aos cabelos escuros e à vitalidade de outros corpos em pleno funcionamento. É nisto que reside toda a poesia da performance, que reúne elementos de dramaturgia, dança contemporânea, canto, improvisação e a música, ao vivo, do compositor, arranjador, bailarino e coreógrafo Ramiro Murillo.

Daí ‘performance’ não ser o termo mais adequado, mas, sim ‘ocupação cênica’. Pra começar, não há palco. Toda a ação se dá dentro de uma instalação cênica concebida especialmente para Wabi Sabi.
Neste espaço idealizado por Hideki Matsuka e Ricardo Muniz Fernandes, uma primeira sala cheia de memórias e fatos biográficos de Dorothy Lenner compõem um espaço relicário e afetivo que contrasta com a placidez e o minimalismo oriental da segunda sala. Estes caminhos paralelos que se interpenetram nos falam dos caminhos percorridos pela atriz e bailarina.

A realização deste projeto marca um momento muito especial nestes caminhos. Afinal, há dois anos Dorothy sofreu um grave acidente de carro quando vinha de Tiradentes (MG), onde reside, para São Paulo. Na ocasião, quebrou os pulsos e teve fratura exposta. Mesmo assim, Dorothy é uma senhora cheia de planos e não pensa em descansar: “Eu estou cheia de anseios ainda, de vontade de viver, de me comunicar. Eu estou preparada para a morte, mas enquanto estou aqui, não consigo viver sem arte, sem criatividade”.


Da esquerda para direita: Beatriz Sano, Dorothy Lenner e Júlia Rocha

De origem mongol, Dorothy Lenner nasceu em Bucareste, Romênia. Em 1939, com a invasão da Polônia por Hitler, a menina que aos três anos dançava sobre a mesa, enrolada em toalhas, mudou-se com a família para a Argentina, após passar pela Itália. Na capital portenha iniciou seus estudos em dança moderna, clássica, flamenca e outras. Em 1953, quando se casou com um brasileiro, instalou-se no Brasil. Apesar de não falar português naquela época, conseguiu ingressar na Escola de Arte Dramática (USP), onde se formou em 1958 e foi aluna de Sábato Magaldi e Décio de Almeida Prado. Posteriormente, entre os anos 1966-1972, lecionou Técnica de Ator na mesma instituição, tendo entre seus alunos Nei Latorraca e Jandira Martini.

Em meados da década de 1960 foi bolsista do Conselho Britânico para representar o Brasil no curso Stage Craft and Acting no Britsh Drama League. Em 1967, também em Londres, cursou danças antigas europeias com Belinda Query. Atuou em teatro, cinema e TV ao lado de Alfredo Mesquita, Alberto D’Aversa, Antunes Filho, Tereza Raquel, Rosamaria Murtinho, Mauro Mendonça, Gianfrancesco Guarnieri, Stênio Garcia, Eugênio Kusnet e Clifford Williams. Mas Dorothy sempre procurou uma forma de se expressar sem falar tanto: “Eu achava que o teatro tinha muito texto (...) você pode expressar tudo que quiser com os gestos, com o olhar...” Em 1977, após voltar da Índia, conheceu Takao Kusuno, um dos precursores do butô no Brasil, com quem estudou e trabalhou. Entre o início dos anos 1980 e 1995 interrompeu sua atuação nos palcos, mas manteve-se integrante da Cia. Tamanduá de Dança-teatro, sob a direção de Takao Kusuno, e à frente do Centro Cultural Tamanduá, localizado no centro histórico de Tiradentes (MG). Nos anos seguintes, quando voltou a dançar, esteve no Japão, a convite da Bienal de Kyoto.

Beatriz Sano é formada em Bacharelado e Licenciatura em Dança pela Unicamp. Desde 2009 integra a Key Zetta e Cia., que tem como diretores Key Sawao e Ricardo Iazzetta. Desde 2011 colabora no processo artístico e residências de criação do artista Eduardo Fukushima. Em 2015 recebeu o prêmio Denilton Gomes organizado pela Cooperativa Paulista de Dança de São Paulo, de Bailarina Revelação pelo espetáculo SIM, da Key Zetta e Cia. Em 2013 foi contemplada pela bolsa Rumos Itaú Dança na carteira de residência. Atualmente participa do projeto Horizonte 20, da Key Zetta e Cia., é colaboradora na residência artística de Eduardo Fukushima no Sesc Vila Mariana, pratica aulas de seitai-ho (técnica corporal japonesa) com Toshi Tanaka e faz parte do grupo Shoyokai de teatro noh.

Júlia Rocha é artista formada em Dança e Performance pela PUC-SP. Em 2016 colaborou com o trabalho de Myriam Lefkowitz, Walk, Hands, Eyes, performou Baile, de Pope L. para a 32ª Bienal de São Paulo, ganhou a bolsa de estudos Danceweb pelo Impultanz Vienna Dance Festival, fez Kiss, de Tino Sehgal, no Leopold Museum (Viena) e na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2014. Dançou por seis anos na Key Zetta e Cia., foi artista residente do Lote#1 e #2, coordenado por Cristian Duarte, e participou do projeto 6 modelos para jogar, de Dani Lima e Alex Cassal (Rumos-2015). Atualmente colabora com as pesquisas de Eduardo Fukushima e Beatriz Sano e compõe a remontagem do espetáculo Obrigado por vir, da Key Zetta e Cia. Co-coordenou as oficinas de criação e compartilhamento de processos artísticos A língua é um músculo, na Funarte (2014), e MONTE – OCOA (2015). Criou os trabalhos Cru (2016), Sumo (2015), Post poems (2014), Leio ouço falo (2013) e Tentativa de salvar o mundo (2008). Em 2012, realizou sua iniciação científica, intitulada Iniciação científica, pesquisa sobre a relação entre experiência e expressão, sob orientação da professora e crítica de dança Helena Katz.

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